miércoles, 22 de agosto de 2012

Exegese do Antigo Testamento Salmo 113


4Elevado acima de todas as nações é Javé, acima dos céus a sua glória. 5Quem é como Javé, nosso Deus? 6Assenta-se no alto e abaixa-se para olhar os céus e a Terra.



Exegese do Antigo Testamento
Salmo 113 (Por Marilda F. Ghiraldi)



INTRODUÇÃO

         O presente trabalho tem como propósito apresentar uma pesquisa exegética do Salmo 113. Realizar a exegese de um texto bíblico é algo fascinante porque implica em entrarmos em contato com o sentido das palavras, com o mundo do autor, e acima de tudo, compreender a ação salvífica de Deus na história do povo de Israel. Por se tratar de um texto de cunho poético utilizaremos alguns recursos estilísticos que envolvem a estrutura literária do deste gênero, também como uma forma de nos ajudar para atingirmos uma correta compreensão da poesia hebraica.

Saber que Deus nos criou para sua própria glória, ainda na infância, foi algo um pouco distante para a minha compreensão. Porém na idade adulta isso mudou em mim e se tornou fascinante existir porque é para a glória do meu Criador. Também saber que Deus é o autor da minha salvação sempre foi por demais grande no meu entender.

Tenho percebido que muitos cristãos não possuem a clareza do Deus Salvador como também a sua criação para o louvor da Sua glória. Por isso nessa dissertação exegética do Salmo 113 gostaria que a revelação do Deus Salvador calasse fundo na vida dos seus leitores e que essa revertesse num hino de louvor a Javé Deus.

                            Texto Original - Salmo 113


Tradução


1Louvai a Javé!
 Louvai servos de Javé
 Louvai o nome de Javé.
2Sê o nome de Javé bendito
 desde agora e para sempre;
3Desde o nascente do sol até o poente
 seja louvado o nome de Javé.
4Elevado acima de todas as nações é Javé,
 acima dos céus a sua glória.
5Quem é como Javé, nosso Deus?
6Assenta-se no alto e abaixa-se para olhar os céus e a Terra.
7Levanta o pobre do entulho e retira o oprimido do monturo,
8sentando-o em companhia dos nobres, junto com os nobres do seu povo.
9Faz viver em família, a estéril, repleta de alegria, como mãe de filhos.
 Louvai a Javé! 

Delimitação
Louvai a Javé
O Salmo 113 começa com a expressão  (Louvai a Javé). Também termina com a mesma expressão(Louvai a Javé). Isso nos mostra com clareza que o Salmo 113 é um bloco completo em si mesmo, com uma estrutura clara, embora, com variações e subdivisões, como veremos na Estrutura do gênero “Hino”.
No final da conclusão (v 9c) o escritor retoma a expressão inicial da introdução,  Louvai a Javé, formando a moldura.
Há unidade temática, um hino com suas partes bem delimitadas, introdução, corpo e conclusão, um hino de louvor; há coesão, o tema das partes é o louvor a Javé  ligadas através dessa temática; e há coerência, começo, meio e fim delimitado pela inclusãoo que torna o Salmo uma perícope. Um poema de louvor delimitado por cesuras, que o separam do salmo 112 no inicio, e do 114 no final, formando um envelope.

Gênero Literário

 Neste tópico situamos o salmo 113 ao gênero literário a que pertence, especificamente. A estrutura que o salmo 113 apresenta é uma estrutura hínica tripartida, isto é: introdução, desenvolvimento e conclusão, emoldurado pela expressão, Louvai a Javé.
“Do ponto de vista temático, os hinos são de louvor a Javé. Javé é o único objeto de louvor”. [1]
O Salmo 113, com sua forma estrutural e composição uniforme deixa claro o seu estilo hínico, um salmo de Aleluia, em que os estudiosos do Saltério seguem uma estrutura tripartida: a forma básica de todo hino israelita.

1.Introdução - Convite ao louvor e ao canto. Um invitatório explícito, uma convocação, com verbo no imperativo, seguido de particípio (vv. 1-3). Louvar (piel) , este verbo caracteriza a unidade e o gênero literário do Salmo - louvai a Javé.
2.Corpo 
           “O corpo do hino propõe razões ou temas concretos do louvor: o ser e o agir de Deus na natureza e na história”.[2]
Descreve os motivos deste louvor, os prodígios realizados por Deus na natureza, especialmente sua obra criadora, e na história, particularmente a salvação concedida a seu povo (vv. 4-6).
3.Conclusão ou parte final do hino recorre às expressões da introdução inicial do salmo (vv. 7-9).
O Salmo 113, segundo os estudiosos, pertence portanto, a esse gênero literário, Hino, por possuir as características mencionadas, conforme o seguinte esquema:




Introdução (convite ao louvor no imperativo 1a-3b seguido de particípio).

1a Louvai a Javé!
 b Louvai servos de Javé
 c Louvai o nome de Javé.
2a Sê o nome de Javé bendito
 b desde agora e para sempre;
3a Desde o nascente do sol até o poente
 b seja louvado o nome de Javé.


(Corpo do hino
 atributos de Javé
4a-6b).
4a Elevado acima de todas as nações é Javé.
 b acima dos céus a sua glória.
5a Quem é como Javé, nosso Deus?
6a Assenta-se no alto e
 b abaixa-se para olhar os céus e a Terra.



(Conclusão 7a-9b)
7a Levanta o pobre do entulho
 b e retira o oprimido do monturo,
8a sentando-o em companhia dos nobres,
 b junto com os nobres do seu povo.
9a Faz viver em família, a estéril,
 b repleta de alegria, como mãe de filhos.
 C Louvai a Javé!




Estrutura Literária

Na estrutura literária, situamos o salmo 113 de acordo com a forma e estrutura que suas partes se apresentam. Já vimos que o salmo 113 é um hino com começo meio e fim. Vejamos como estas partes se subdividem em estrofes e se completam em sua temática. Louvor a Javé.
“O Salmo 113 se agrupa em torno de dois pensamentos, ambos referentes ao Ser Deus: o primeiro é a soberania incomparável de Javé, em sua glória, que Ele seja louvado por todos os homens (vv1-4). O segundo revela o Deus imanente, a sua admirável misericórdia para com os desprezados entre os homens (vv5-9). Quem é como Javé, nosso Deus? Que está no alto, mas condescende com o pobre, o oprimido”.[3]
“Esses dois pensamentos estão subdivididos em três estrofes:” [4] (vv1-3; vv4-6; vv7-9b).
Possui uma moldura inicial (v 1a) - Louvai a Javé .
Uma introdução (v 1bc) (Louvai servos de Javé/ Louvai o nome de Javé). O verbo está no imperativo, segunda pessoa do plural. Está dirigido aos servos de Javé e o objeto do louvor é o nome de Javé, que ocorre também no (v 3c).
A primeira estrofe (vv. 2a-4b). O verbo louvar se apresenta no particípio, o motivo do louvor hínico é Javé, o seu nome (vv. 2 – 3c). No (v 4) há a constatação (Qal perfeito JAVÉ) a soberania de Javé com o verbo ser.
O (v 5) inicia-se com a forma da pergunta retórica ‘Quem é como Javé, nosso Deus’? Faz parte do estilo hínico e está no mesmo rumo de pensamento do autor ...
“nada existe neste mundo que se possa pôr ao mesmo nível com Deus”. (WEISER, 1997 p. 548)
Esta pergunta retórica estabelece uma ruptura com o pensamento da 1º estrofe, que versa sobre a glória de Javé, sua soberania, a sua eternidade e a infinitude do seu nome e o pensamento da 3º estrofe que vai falar da misericórdia de Javé para com os homens. Porém, o (v 6) fala da condescendência de Javé, o seu domínio sobre o universo, céus e terra. Portanto esta 2º estrofe (vv. 5 – 6) mostra que não há limites para a grandeza de Javé no tempo e no espaço. O  motivo do louvor é o domínio universal de Javé sobre todas as nações e sobre os céus e a Terra.
A 3º estrofe (vv. 7a – 9b) discorre sobre a misericórdia de Javé, seus feitos na terra, entre os homens, apresenta, portanto, os motivos e símbolos concretos da condescendência de Javé.
Finalmente, estas estrofes se acham dentro da moldura final (v 9c) Louvai a Javé!
Senão vejamos:

Moldura inicial



Introdução





1º Estrofe (vv. 2a – 4b)
1a Louvai a Javé!


 b Louvai servos de Javé
 c Louvai o nome de Javé.


2a Sê o nome de Javé bendito
 b desde agora e para sempre;
3a Desde o nascente do sol até o poente
 b seja louvado o nome de Javé.
4a Elevado acima de todas as nações é Javé.
  b acima dos céus a sua glória.



2º Estrofe (vv. 5a – 6b) Ruptura com pergunta retórica


5a Quem é como Javé, nosso Deus?
6a Assenta-se no alto e
 b abaixa-se para olhar os céus e a Terra.





3º Estrofe (vv. 7a – 9b)




Moldura final (v 9c)

7a Levanta o pobre do entulho
 b e retira o oprimido do monturo
8a sentando-o em companhia dos nobres,
 b junto com os nobres do seu povo.
9a Faz viver em família, a estéril,
 b repleta de alegria, como mãe de filhos.

 C Louvai a Javé!


Retórica e Estilística

“Retórica é todo o conjunto de regras relativas à eloqüência da oratória”.
“Estilística, a disciplina que estuda as expressões de uma língua”.
Neste tópico estudaremos os recursos retóricos e estilísticos que embelezam e dão as características claras da poesia hebraica, em especial, o hino em tela. Observaremos alguns dos principais recursos de estilo, senão vejamos:

I- Paralelismo

a) climático trimembe:
v 1a Louvai a Javé!
     b Louvai servos de Javé
     a Louvai o nome de Javé.[5]
b) sinonímico com um quiasmo ab-ab
    sintético nas linhas 2ab e 3ab;
introverso nas linhas 2a 3b e 2b 3a
v 2a Sê o nome de Javé bendito
    b  desde agora, e para sempre;
v 3a desde o nascente do sol até o poente
    b  seja louvado o nome de Javé.
Observamos uma composição significativa de estilo, nestas coordenadas de tempo e de espaço: desde agora/para sempre // desde o nascente/até o poente. Há como que um balanço de sons. Um movimento de cima para baixo. Um paralelismo que repete a idéia reforçando, sem dúvida, o tempo e o espaço do louvor. As cesuras distinguem os versos marcando o ritmo e embelezando o poema.
c) sintético e sinonímico, uma correspondência mútua nos versos, por hemistíquios.
Sinonímico – v 4a Elevado acima de todo povo é Javé,// b acima dos céus a sua glória.
Sintético – v 5a Quem é como Javé, nosso Deus? // b Assenta-se no alto e abaixa-se para olhar os céus e a Terra.
d) Progressivo gradativo
v 7a Levanta o pobre do entulho e retira o oprimido do monturo,
v 8a sentando-o em companhia dos nobres, junto com os nobres do seu povo.
V 9a Faz viver em família, a estéril, repleta de alegria, como mãe de filhos.

II- Artifícios Sonoros

a) Assonâncias – Por todo o Salmo encontramos a repetição dos fonemas sibilantes causando expressão de vitória. / s/ /ss/ /ç/. A gutural /r/ nos versos 6-7, pode indicar a aspereza em que realmente está o oprimido, intensificando a sua situação, o seu gemido. Também repetem-se por todo o Salmo os sons nasalizados /m/ /n/ /nh/.
b) Aliterações – Destacamos o morfema /l/.

III- Figuras de Linguagem

a) Repetições – Um outro detalhe de estilo são as repetições de vocábulos. O nome (Javé) repetido 8x; louvai 4x no imperativo; 1x no particípio; a preposição desde 2x; nome 3x;
b)  Perífrase
(v1) servos de Javé  ( Assembléia, comunidade de culto)
c) Quiasmo (vv. 2-3)
v 2a Sê o nome de Javé bendito
    b  desde agora, e para sempre;
v 3b desde o nascente do sol até o poente
    a seja louvado o nome de Javé.
d) Silepse (v 9) de pessoa - a estéril
e) merismo (v 3) nascente / poente, significando em todo o tempo;  (v 6) céus e terra, significando todo o universo, todas as nações.
f) Interrogação (v 5) Quem? Introduz uma pergunta retórica.
g) Gradação (7) levanta / retira/; (8) senta
h) Inclusão Louvai a Javé (vv. 1a - 9c).
A análise retórica e estilística ajudou-nos no estabelecimento dos eixos semânticos, aos quais, buscaremos o seu significado, na próxima etapa, ou seja, na análise semântica. Ajudou-nos compreender um pouco do estilo semítico e sem dúvida nos deu a direção para uma posterior hermenêutica.
Semântica  
Nesta etapa procuramos pelo significado exato de termos que nos  auxiliem numa melhor compreensão do sentido global do salmo 113.

      a.              Um primeiro eixo semântico que traçamos apontou para a repetição do nome de Deus.(Javé) vv. 1abc; 2a; 3b; 4a; 5a; 9c e -nosso Deus v 5a) também o vocábulo (-nome vv. 1c; 2a; 3b "o nome de Javé").
O nome de Yahweh é o grande nome da teologia dos nomes do AT. Em alguns textos bíblicos o ‘nome de Javé’ está tão intimamente ligado ao ser de  Deus que funciona quase como uma aparição de Javé (Ex 23.20-21; Is 30.27). Encontramos a tabernaculação do nome em muitos lugares, quase como uma cristofania (Ex 20.24; Dt 12.5).
“O nome de Deus também significa a total auto-revelação de Deus em sua santidade e verdade (Sl 22.22)”.[6]
Em (Ex 3.l4ss) encontramos Deus mesmo dando explicação do nome de Yahweh como ‘sou quem sou’, mostra que a dimensão pessoal é um constitutivo da própria essência de Deus.”[7]
 Para o hebreu a concepção de Javé estava no seu grau mais sublime, um ente caracterizado por uma personalidade absoluta que manifesta-se no seu nome com espírito e liberdade. Javé significa o Deus transcendente, que na sua essência ultrapassa tudo o que é mundano.


“Javé habita no céu , mas Ele escolhe na terra um lugar onde faz habitar o Seu ‘nome’ (Dt 12.11;14.23). Porque Javé habita no templo, a  Sua própria presença é garantida, ainda que o templo viesse a ser profanado, a transcendência de Javé continuaria a ser preservada, cf. (1Rs 8.13, onde Javé habita em densas trevas, com 1Rs 8.14ss, onde o nome de Javé habita no templo). O nome de Javé, como o próprio Javé permanece  soberano”.[8]          
Javé em sua transcendência, não se liga a limites, é onipresente, não há espaço que o contenha, por isso, louvado em todo tempo e espaço (vv. 2-4). Javé é o Senhor da natureza e do todo os seus espaços; não é parte dela, é Javé, é Senhor. Louvar o nome é louvar a pessoa de Deus. O nome pronunciado endereça o louvor.
Javé é Criador e Senhor da totalidade do universo dos homens, Senhor da vida e da morte e Senhor da comunidade que Lhe pertence  (Sl 123:22).
“Um dos  aspectos mais fundamentais e essenciais da revelação bíblica é o fato de Deus não ficar sem nome: tem um nome pessoal, mediante o qual pode e deve ser invocado (...). O nome de Javé é uma expressão poderosa da Sua Soberania pessoal e da Sua atividade que pode ser empregada como modo alternativo de falar do próprio Javé (Lv 18.21; Sl 7.17). É o lado de Javé que se volta em direção ao homem, no qual Javé se revela. Seus procedimentos para com os homens no passado, no presente e no futuro se vinculam inextrincavelmente com o Seu nome”.[9]
Comparando os Salmos 97.9 e 99.2 observamos que o primeiro fala da exaltação de Javé sobre todos os deuses e o segundo fala sobre todos os povos. O salmo em tela, 113, se harmoniza com o segundo, e não dá lugar a outras divindades. Javé é único, Javé é seu nome, como diz Zacarias (14.9); o nome de Javé era mencionado nos juramentos e o seu uso indevido era proibido (Ex 20.7), pois que é uma dádiva da sua revelação, entregue em confiança aos filhos de Israel, e não conhecido pelos pagãos. A tarefa de Israel é santificar o nome, no culto, no sacrifício, na oração, na bênção e maldição, e guerra santa. Portanto o nome de Javé quase fica sendo uma hipóstase do próprio Javé (Sl 118.10; 54.1).
  “Ao comunicar seu nome, Deus se arrisca: o dá para o uso, o expõe ao abuso por isso acrescenta um mandamento que o proteja: o homem não deve usá-lo em vão ou profaná-lo. Conhecer o nome próprio de uma pessoa é uma abertura para o relacionamento. Com respeito a Deus, o homem pode louvá-lo freqüentemente, pronunciar este nome com seus lábios. “ [10]
Nos Salmos, o nome de Javé designa o mistério e maravilha de sua revelação, o ponto de referência de toda súplica, louvor e reflexão. ‘Conhecido é Javé em Judá, em Israel é grande seu nome’ (Sl 72.2). [11] Israel possui a revelação do seu nome, conhece, (Sl 9.11) teme, (86.11) ama, (5.12). Invoca o nome de Javé (Sl 75). Este nome é cantado, louvado é santo e temível (Sl 111:9), glorioso. O nome significa vida, identidade presença. É eterno permanece para sempre, é lembrado e anunciado por todas as gerações.
O nome de Javé é uma força protetora sempre presente (Sl 120.2). Diante do nome de Javé os inimigos retrocedem (Sl 118.10-12). O Deus de Israel ajuda com seu nome (Sl 54.3). Javé é o criador, a soberania do seu nome irradia a todo mundo (Sl 8-2). Quando Deus se apresenta ao seu povo, comunica seu nome. Toda invocação e louvor ao nome tem por destinatário o Deus presente, Ele mesmo. Assim como Javé é Santo, também o seu nome (Sl 111.9). Esse nome é fonte de Salvação que é o seu conteúdo fundamental e cidadela protetora. O nome é Deus mesmo.
“Os orantes e cantores dos salmos são plenamente conscientes, e estão convencidos, de que  este nome não é algo vazio, sim que tudo se encerra nEle: justiça e salvação, redenção e vida, conhecimento e sabedoria”.[12]
O nome distingue o Deus de Israel de todos os deuses e poderes restantes. Por conseguinte, o nome de JAVÉ é o compêndio de todo poder e poderes. É Javé  na plenitude de seu poder divino, em sua unidade e exclusividade. O nome próprio do Deus de Israel é Javé. Porém com muita freqüência o chamam também de Elohim, El nome próprio do Deus supremo, Elyon, título usado como nome próprio. O salmo 113 quer exaltar o nome pessoal, único, supremo de Javé. O hino é dedicado ao nome de Javé, e também apresenta um aspecto de sua ação entre os homens.
Fazendo parte também deste 1º eixo semântico encontramos os vocábulos - louvai, bendito, glória, elevado,  céus. Esses vocábulos, louvai, bendito, glória, elevado e céus, embora com significados distintos, se entrelaçam, para deixar patente, claro, a soberania de Javé, sua glória, sua santidade, atributos  de Deus, separado e elevado acima de tudo o que é comum, criado e fraco, tanto física como moralmente.
Louvai a Javé
O louvor tem seu lugar original no culto. No culto se realiza o que o convite ao louvor solicita.
 “A maioria dos salmos apresenta a seguinte forma imperativa do convite ao louvor. ‘Louvai, servos do senhor, louvai o nome do Senhor’ (Sl 113.1) .” [13]
O emprego do verbo é muito freqüente e pode-se notar quando se analisa a série de verbos paralelos que apresentam este convite no imperativo ao  louvor.
“Qual é o significado deste convite ao louvor? A invitação é necessária porque o louvor rendido nunca será suficiente; se proclamará sempre de novo, incansavelmente, continuamente, porque esse louvor a que se convida é reconhecido como algo virtualmente necessário, como fundamento da existência e base da comunidade e porque na comunidade existe um forte impulso para executar esse louvor. Este forte impulso, é a convicção de que o louvor deve se realizar, e o primeiro elemento que determina a invitação ao louvor. Esta deve realizar-se para que Deus seja reconhecido, afirmando e confirmando na totalidade de seu ser divino”. [14]
 Os outros verbos paralelos, designando alegria e júbilo, mostram que é com expressão de alegria que se dirige a Deus. No At alegria e louvor aparecem unidas.
A invitação ao louvor se dá quase sempre no plural, freqüentemente com instrumentos musicais que acompanham o louvor a Deus o qual tem o seu lugar próprio na assembleia da comunidade. Portanto (hll piel) o louvor  está claro como elemento de culto veterotestamentário. Um outro elemento deste convite é que ele não se dirige somente aos homens.  O louvor é um ato dirigido a Javé e pode participar todas as criaturas; o homem participa dele como uma criatura entre criaturas, não com sua racionalidade, sim o homem em sua totalidade, o homem no que tem de comum com as demais criaturas. Não é a inteligência que louva a Deus, sim o homem que respira, se alegra e canta. Trata-se de uma relação existencial com Deus, que não poderia acontecer partindo unicamente da razão (Sl 150.6).
“A necessidade de repetir continuamente o convite ao louvor (Sl 113.1-3) pressupõe a continuidade do culto realizado com regular periodicidade. É de vital importância que o louvor a Deus se reflita na estrutura do cântico de louvor: Deus é apresentado na totalidade de seu ser e de seu agir. A comunidade reunida no culto se situa conscientemente frente a Deus que é Senhor de Israel, criador e rei da história, por isso se convida os povos, os reis, e a todas as criaturas, a que participem neste louvor (Sl 148; 150). Louvar responde a um impulso pessoal, e acompanha o caráter de espontaneidade”. [15]

“O árabe baraka significa a capacidade de felicidade que existe em certos homens e que os faz ter sucesso em tudo o que empreendem, podendo partilhar com os outros. Mas significa também a fecundidade, a plenitude, a riqueza em camelos e ainda a umidade tão desejada no deserto. Também no Antigo Testamento notamos a relação entre bênção e a fecundidade dos homens, animais e campos”.[16] 
Quando o objeto é Deus e seu Nome, freqüente nos salmos  (113.1c; 2a; 3b), aparece o particípio passivo ‘baruk’  (louvado) e significa bendito, designando a ação de bendizer ou louvar a Deus.
A bênção, geralmente é proferida do maior para o menor e pode envolver pai e filho (Gn 49); irmãos e irmã (Gn 24.60); rei e seus subordinados (1 Rs 8.14); sacerdotes e participantes no culto.  A bênção podia ser comunicada em momentos especiais: despedidas, apresentação de alguém, com a função de conferir vida abundante e produtiva, sempre uma boa palavra.
“Bênção, (brk no piel) simplesmente significa ‘dirigir boas palavras a alguém, ‘proferir sobre ele boas palavras’, significando então ‘desejar a felicidade’, abençoar’.  A força da bênção que uma vez saiu de alguém não pode mais ser trazida de volta (Gn 27.33)”.[17]
O Antigo Testamento vê Deus como a única fonte de toda bênção. Somente Deus tem o controle de toda a bênção e também da maldição, que é o contrário de bênção (Nm 22 e s.). A sua presença já é bênção, e é em seu nome que outros podem abençoar a alguém (Dt 10.8).
“Na verdade, o nome de Deus, a manifestação de sua natureza pessoal, redentora e que mantém sua aliança, é o centro de toda bênção”.[18]
Bênção, em sentido estrito, é proferida no Antigo Testamento por pessoas revestidas de autoridade especial: os patriarcas a proferem sobre seus descendentes, e bênção estão relacionada especificamente com poderes de reprodução, Deus dá a vida. Os pais sobre os filhos; os grandes mediadores da aliança: Moisés, Aarão, Josué, sobre o povo. Também no culto, a bênção é tarefa de determinadas pessoas. Assim o rei abençoa o povo por ocasião da consagração do templo, ou término de uma reforma cultual. Os sacerdotes abençoam individualmente os homens piedosos que vêm ao santuário desempenhar alguma função. Não somente os sacerdotes podiam abençoar, mas conforme Dt 10.8, também os levitas.
No culto também  Javé pode ser abençoado pelo homem.
 “Portanto, abençoar a Javé, bendizer a Javé, é em Israel e no salmo 113,1-4, um reconhecimento de seu poder, uma glorificação do seu poder, sua sublimidade, seu domínio, sua santidade; prestar-lhe a devida honra, agradecer e confiar nele.”[19]


Glória   ‘honra’. Quando se aplica a Deus, significa a manifestação luminosa da Sua pessoa, Sua gloriosa revelação de Si mesmo, é a própria realidade da Sua presença. Caracteristicamente, Kabôd  se vincula com verbos de ‘ver’ (Ex 167;33.18) e  ‘aparecer’ (Ex 16.10; Dt 5.24). Podemos reconhecer Kabôd na criação (Sl 19.1; Is 6.3), mas se expressa acima de tudo na história da Salvação, sua inigualável atividade como libertador e salvador.  Em (1Sm 4.21-22), a perda da arca de Deus para os filisteus significa que “Foi-se a glória de Israel.”  A arca simbolizava a presença divina que não se podia carregar (1Sm 5.6; Ex 33.17-23). Esperava-se para os últimos dias uma plena manifestação do Kabod. Seu propósito era trazer a salvação de Israel (Is 60 1-2; Ez 39.21-22), mas também converter as nações (Sl 96.3-9; Zc 2.5-11). Esta glória normalmente se acha somente em Deus, embora, em (Ez 8.2;1.7-13 e Dn 10.5-6), seres angelicais mostrem algumas características dela.
A glória de Deus é inerente a Ele. Por isso requer o respeito do homem, que no Salmo 113 está no louvor a Javé. A glória de Deus, para os Israelitas, está sobretudo em seu poder e santidade, como também verifica-se na maior parte dos textos do AT. Quando Javé revela seu poder e santidade a sua glória é manifestada como um fenômeno luminar, que enche o lugar com a sua presença, conforme o foi no Sinai, deserto, santo tabernáculo e no Templo.
Os seres celestiais louvam a Javé por causa dos seus atos, pois tudo quanto acontece na terra revela a glória de Deus (Sl 29.9). Teologicamente o Salmo 113, neste 1º eixo semântico, mostra  com clareza como os vocábulos se completam em seu significado. Javé é um Ser transcendente, glorioso, bendito; a sua glória enche todo o universo. As suas ações não se realizam fora da experiência humana, que deve responder prestando-Lhe a glória correspondente, (2º eixo Semântico).

Todavia é no Cristo o Filho de Deus, que se vê a realidade, o esplendor da presença e caráter de Javé (Is 4.2). Uma glória de característica quase  cegante, “E vimos a sua glória como do unigênito do Pai”.
 Este hino de louvor quer ser universal, espalhando no espaço e no tempo o louvor a Javé.  Pode-se apontar ainda neste eixo de significados afins os vocábulos (elevados e céus). Teologicamente, céu significa a morada de Deus, o firmamento, chamado de trono de Deus( Is 66.1; Dt 26.15; 1 Rs 8.30) e é a partir desse lugar que Ele estende a mão para realizar sua vontade na terra. Podendo também, por metonímia, ser usada para Deus. Nos salmos se repete constantemente: Javé reina no céu. Javé tem feito céu e terra (Sl 115.15; 121.2).
Os céus são obra de seus dedos (Sl 8.4; 10.2.26) O mundo celeste foi chamado à existência pela palavra criadora do Deus de Israel, por isso os céus narram a sua glória e majestade deste Criador.[20] 
 Os céus,  e todo o mundo visível e invisível não podem conter  Javé, porque foram criados por Ele. O céu narra a glória de Deus, declara a sua justiça e o louva. Portanto chama a atenção para Deus o Criador.
Concluindo este primeiro eixo semântico: não há limite nacional, nem espacial nem dimensão alguma que possa expressar a majestosa  transcendência de Javé. E então no (v5) o autor se serve de forma interrogativa, para expressar com mais ênfase -‘Quem é como Javé?’ Sentado, reinando eternamente, sim porque sentar tem o significado de habitar com autoridade, é marca de honra. Dentre os deuses não há Deus como Javé. No 2 º eixo semântico aparecem palavras de significados afins, mostrando que Javé, conquanto ser o criador de todo o universo e dominá-lo, ser cheio de glória, bendito, louvado, ter a sua morada nos céus, porque nada pode conter a sua glória, nem espaço nem tempo, desce! Abaixa-se, se humilha, se esvazia., descendo vê, encontra-se, e ocupa-se desse homem.
b. O segundo eixo semântico apontou para os vocábulos terra, pobre, servos, mulher (estéril/mãe), povo, nobre (príncipe)
-Terra. Esta palavra possui o significado de o mundo habitado. Israel chega a uma terra habitada (Ex 16.35). O AT  chama o universo de céus e terra, e, na narrativa da criação, o propósito é dar testemunho de Deus, Javé, como Senhor sobre tudo, inclusive do caos. Seu objetivo é claramente a criação do homem para que habite a terra. A vocação do homem é reconhecer que tem de prestar contas a Deus por sua tarefa no mundo, e exercer a liderança sobre as coisas criadas. Há uma ordem imanente do universo, a soberania de Deus sobre não só o homem, sim, que sobre as nações do mundo, e sua respectiva história.
A natureza, as entidades cósmicas e os elementos são observados sempre no seu relacionamento com seu Criador e Senhor, são instrumentos de Deus.
Javé, portanto, em sua glória, de sua altura olha a terra, que está muito ligada à história da salvação. Para o semita a natureza estava muito ligada ao destino do homem. A sua relação com Deus devia refletir-se necessariamente na relação existente entre ele e a terra que pela benevolência divina lhe nutria a vida.  A bênção de Javé vai restituir à terra a fertilidade, a vida, (v 6) pois que nesse universo, estão os pobres que sofrem e são oprimidos; a mulher estéril, que é rejeitada e onde os nobres governam. É nessa terra que encontramos os personagens do segundo eixo semântico do salmo 113 e a ação de Javé na terra.
Na terra está o pobre. No livro dos Salmos o orante se auto qualifica como ‘pobre e miserável’ (Sl 40.18; 70.6; 86.1). Nos Salmos de súplica, em situação de angústia e apuro o orante se apresenta a Javé do profundo de sua situação, pobre e mísera.
                      Javé cuida das viúvas, dos órfãos, dos estrangeiros e de quem carece de médicos. No salmo 82, aparecem reunidos os termos ‘oprimidos’, ‘órfãos’, ‘indigentes’, e ‘necessitados’. Pobre então, é aquele que carece de  proteção legal, que carece de influência e de prestígio social, e que está entregue aos caprichos dos adversários poderosos. Os pobres carecem de terra, são os prejudicados e desamparados na luta pela existência. Nada lhes dá apoio, ‘carecem de ajuda’. Porém, encontram apreço e apoio em Javé; esperam que suas vidas tenham rumo. Javé se apresenta como rei, advogado e salvador dos pobres.
O significado primeiro, original de ‘pobre’ está  nesta reivindicação da oferta divina de ajuda jurídica e no seu cumprimento. Pobres são aquelas pessoas cuja situação de necessidade os obriga a esperar tudo unicamente de Javé. Esses são objetos de perseguição, são oprimidos e maltratados, são objetos de injustiça. Seus olhos estão dirigidos a Deus e esperam que os auxiliem e mude a sua sorte. Portanto é o conceito oposto aos dominantes poderes inimigos. Javé é a esperança para esses miseráveis, cuja necessidade parece não ter fim, ‘o pobre não será olvidado para sempre’ (Sl 9.19), porque Javé se acerca daqueles que o invocam sinceramente (Sl 145.18).[21]
Por isso, a atuação de Javé (Sl113.7). Deus desce até os homens que têm mais necessidade de seu socorro, aqueles que estão no estrato mais baixo, os pobres, os indigentes, e a mulher estéril. É diante de Deus, de Javé que a verdade sobre a condição humana fica clara, desnuda, patente.
O oprimido (v7) é um pobre e miserável, subjugado pelas classes dominantes, vive da caridade pública como os indigentes, como os pobres.
A mulher não tinha os direitos de uma pessoa livre; era sempre sujeita ao homem, ao pai ou ao marido e na falta destes ao irmão mais velho. Considerada muito mais como coisa do que como pessoa, ocupa lugar inteiramente subordinado na sociedade. Ela só goza de certa consideração como mãe dos filhos, que deu à família. (Sl 113.9)  “Seu valor, bem como sua honra, consiste em dar à luz filhos (Dt 25.5-10) e a esterilidade é uma maldição (Gn29.21-30.24).
 Os rabinos comumente enquadravam as mulheres juntamente com os escravos e as crianças e agradeciam a Deus, porque não haviam sido feitos nem gentio, nem escravo, nem mulher. Portanto deixar de possuir um herdeiro era ainda marca maior de opróbrio ex. (Ana, Sara).
A estéril do salmo 113, sem dúvida é essa mulher, pobre, desprezada, sem filhos, rejeitada, que espera somente em Javé, pois não é reconhecida socialmente.
Nesse segundo eixo, portanto encontramos essa classe de desvalidos de pobres que carecem deste olhar de Javé, desta ação de Javé que mude a sua sorte (113.5-6). E num movimento majestoso Javé chega a esses ‘pobres’ e transforma toda situação de miséria em situação de honra.
O terceiro eixo semântico, aponta para os ‘servos’ e os ‘nobres’; o verbo sentar é o responsável por esta situação nova para os pobres; sim. Porque são eles que agora ocupam a posição de honra e louvam a Javé. Javé os levantou, arrancou da situação de pobreza e os ‘sentou’, os elevou a uma categoria nobre de honra. Deus assenta-se e por isso ele pode assentar os pobres junto a Si num lugar de honra. Sentar-se tem o significado de habitar, permanecer, traduz respeito, autoridade.
Os nobres da terra são aqueles convidados pelo salmista a que louvem a Javé, esses são os servos, fazem parte desta assembléia de louvadores e  Deus faz que participem dela, os pobres. Servos são os escolhidos, separados para o louvor, a adoração; e não mais apenas os sacerdotes, os levitas.

Análise Contextual

O objetivo da análise contextual será estabelecer as ligações do Salmo 113 com textos no livro dos Salmos e, cognatos a ele, ou seja, contexto literário. Num segundo momento tentaremos encontrar o contexto sócio histórico em que o Salmo 113 surgiu e foi utilizado.

Contexto literário

O Salmo 113 delimita-se ao 112, e ao Salmo 114 cujo tema é a travessia do Mar dos Juncos e a do Jordão, (Sl 66.6; Ex 14 e Js 3). O parâmetro da análise é o próprio tema do salmo em tela, o louvor a Javé pela sua grandeza e pelos seus atos salvíficos.
O Salmo 113 era em especial recitado por ocasião da Páscoa e também em grandes festas, pelos judeus (Mt 26.30); porém foi no culto que Israel glorificou as intervenções de Javé na história. Chamado de salmo aleluiático, inicia o ‘Grande Hallel’, (113-118). O hino de louvor não está presente somente nos Salmos, mas perpassa a Bíblia, podendo sair do íntimo individual e também do povo congregado (Sl 113.1b; Sl 34.3).
 “A alegria sincera é comunicativa, requer que outros participem”.[22]
Portanto é na comunidade que os atos de Javé devem ser conhecidos e celebrados. O convite ao louvor não somente é feito ao povo de Israel, sacerdotes, levitas, mas, a todos os homens, aos servos, (Ne 1.10-11; Sl 113.1b) de todas as nações, (Sl 117; 69.34,36). Portanto seu ambiente vital é o culto público do antigo Israel.
Israel louvava Javé continuamente. Javé é o Deus de Israel o seu único libertador, cheio de glória e por isso é louvado pelos seus servos em resposta natural às manifestações das intervenções misericordiosas de Deus (1 Sm 25.32; Sl 66.20). Ao reconhecer os atos históricos de Javé, Israel estava louvando-O.  A majestade divina, sua glória, seu nome revelado, seu domínio no espaço e tempo, os atos de salvação, são motivos pelos quais Israel louva a Javé sempre.
A história da salvação, se faz compreender em que Deus escolheu graciosa e soberanamente Israel para a sua realização plena em Cristo. No mesmo contexto literário em que o Salmo 113 se encontra, apresentando um Deus que se compadece do homem e desce para salvá-lo, elevando-o, vamos encontrar nos primórdios da História de Israel, esse mesmo Deus agindo e falando ao homem e no homem.
O Deus-redentor, numa epifania, surge em socorro do seu povo; é o seu agir dentro de situação aflitiva (Jz 5.4-5; Sl 80.2-3; Hab. 3.3-13). As Escrituras conhecem o Deus-redentor (Sl 113.4-9);  Javé vê a miséria do povo que está no Egito, ouve o seu clamor por causa dos seus opressores e conhece as suas angústias (Ex 3.7). A salvação que vem de Javé para o necessitado, o oprimido, aquele que está no monturo no pó, já teve seu início na saída do Egito, sustentou a esperança no exílio e agora no pós-exílio é cantada, é louvada e chega ao “magnificat”.
O Deus-redentor reage ao sofrimento, opressão, pobreza e escravidão de suas criaturas, e foi nessas condições que teve início a História de Israel, cuja libertação, fora anunciada por José (Gn 50.24). O próprio culto divino tem suas raízes na libertação egípcia e por todo AT o encontro com o Deus-redentor é uma constante. Nos livros históricos atos salvíficos são relatados, após a libertação do Egito, na conquista da terra Canaã, nos Juízes e durante a monarquia (Jz 6,7; Sl 80; Is 63,64). O povo vivia situações concretas da salvação que vinha de cima.
Israel aprendeu que Deus não era somente o Salvador dos apuros causados por inimigos, mas também dos apertos elementares da existência humana. Israel sabia distinguir entre o ‘pão da bênção’ que cresceu durante o ano graças à colaboração humana, e o ‘pão da salvação’ recebido em épocas de carestia, este como dom especial de Deus-redentor (2 Rs 6,7).[23]
O Dêutero-Isaías descreve a libertação do exílio babilônico sob a ótica do novo Êxodo. O tema dos salmos individuais surgiram das situações de salvação da morte, seguidos pelo louvor ao Deus-Salvador que olhou para as profundidades (Sl 113.6). No mesmo contexto, encontramos os patriarcas que louvam a Deus que interveio diretamente em situações aflitivas: a salvação do filho que morria de sede (Gn21); os riscos da mãe no estrangeiro (Gn 12.10-20); a salvação de Jacó da vingança do irmão (Gn 37e 44). No dilúvio, Deus salva uma família das águas e nas passagens apocalípticas o tema da salvação é relatado. O homem foi criado para a vida e no NT a salvação pelo Cristo é o tema central. É no encontro com o Deus-redentor que a história de Israel é inaugurada. Portanto é no Pentateuco que temos o resultado de confissão de louvor.
Pode-se, então, perceber que há realmente um contexto literário que perpassa as Escrituras, atestando e confirmando teologicamente a história da salvação de um povo, desde o Êxodo, passando pelos Juizes, Profetas, pelos Salmos, Cânticos e chegando ao Novo Testamento.

Contexto sócio-histórico

Israel encontrou o belo em maior intensidade na revelação de Javé, nos seus atos salvíficos, na sua forma de governar o Universo. Os hinos testemunham os atos de salvação de Javé e o Salmo 113 é um exemplo. É na comunidade de culto que Javé recebe o louvor dos seus servos pela salvação, pois que o israelita serve a Javé em lugar sagrado e em hora regulamentada. O culto é uma expressão institucional do relacionamento entre Deus e o homem num agir e num falar. Numa manifestação teofânica Javé revela-se, num ato de culto, para libertar, para salvar. No culto quando Israel é convidado louvar Javé, Este baixa ao homem e revela a Sua vontade em que o homem viva liberto, triunfante junto com os nobres.

                     O culto divino foi introduzido na teofania sinaítica, quando pela 1º vez, Javé se manifestou em Palavra e aparição, tendo Moisés como medianeiro (Ex 19; 24.15-18).  A característica do Culto Israelita, é a manifestação do Deus-redentor e o objetivo da narrativa sinaítica é a instalação do culto permanente. Porém Javé não ficou vinculado ao Sinai, apesar da teofania, pois, que Javé é o Deus da História, e não um deus local.
Não podemos reconstituir exatamente os acontecimentos históricos, porém foi Davi que regulamentou o culto (2 Sm 6; 15.24-29; 23.1-7; 1Cr 23; 25.1-7) e também deve ter organizado o exercício e a administração (2 Sm 8.15-18; 20.23-26).
O hino, como é o Sl 113 tem sua situação vivencial, o culto a Javé, quando é exaltada a sua grandeza e glória e sua ação salvadora na História de Israel. Os poetas hebreus
“refletiam os ideais da piedade religiosa e da comunhão com Deus, do deleite na adoração a Deus, da confiança quando o mal triunfa e a impiedade prospera por algum tempo, experiências religiosas e espirituais da alma humana, da humanidade”.[24]
Os Salmos podem ser encontrados em muitos diferentes períodos da história dos hebreus (EX 15; Jz 5; 1Sm 2.1-10). Porém o que fica claro é que os Salmos foram escritos para serem usados no ritual do Templo, e que  a maioria era para ser empregada pela congregação, ainda que alguns visassem um uso particular. Portanto
 “o Saltério deposita grande ênfase sobre o lugar da adoração pública na vida religiosa do hebreu individual”. [25]
“A revelação de Javé se fez num determinado momento da história, que marcou para sempre a memória dos adoradores de Javé, mas que não podemos precisar; porém, antes do período mosaico é muito provável que os antepassados de Israel não eram adoradores de Javé. Em oposição ao culto cananeu, o culto pelos ancestrais israelenses é um verdadeiro ato de eleição e se perpetua de geração em geração. É no Sinai que se dá a revelação particular de Javé a qual sempre permaneceu viva em Israel, pois Javé se revelou às tribos como o seu Deus e então, Israel passou a celebrar o acontecimento anualmente numa festa cultual”[26]
“Como a tradição do hino a Iahveh é muito antiga e já desde bem cedo apresenta os elementos fundamentais características do culto da Aliança, o lugar do seu cultivo deve ser procurado já na mais antiga forma do culto festivo de Israel, isto é, na festa da Aliança da confederação sagrada das tribos de Israel”.[27]
O hino de louvor tem as suas raízes na história de Israel. O cântico de Míriam uma celebração do poder salvífico de Deus às margens do mar Vermelho. O cântico de Débora tem uma forma de hino e é em louvor a uma intervenção divina. O encontro de Javé com o seu povo na liturgia celebram, portanto as tradições do Êxodo e do Sinai e é no culto que Israel adquire uma consciência maior e mais clara da Aliança.

Então, é nas festas de Israel que se situa a origem dos Salmos de louvor. Encontramos Elcana indo anualmente oferecer sacrifícios e adorar a Deus em Silo (1Sm 1.3). Amós, o profeta menciona o som dos hinos e ainda das harpas (Am 5.23). O canto de louvor era constante nas festas de Israel.  O povo participava do culto celebrando com palmas, gritos e exclamações de alegria (Sl47.2; 1Rs 1.39; 2Cr 23.11-13; 29,30).  Também participavam com gestos, levantando as mãos, prostrando-se ajoelhando-se, (Sl 28.2; 95.6; 2Cr 6.12; Ed 3.11).[28]

O Hino de Louvor, portanto tem o seu ambiente vital o culto israelense, as festas, o louvor em resposta às ações salvíficas de Javé.

Síntese do Significado


Nas Escrituras encontramos um Deus sempre junto ao homem. Desde a libertação do cativeiro do Egito vemos um Deus preocupado em conceder salvação ao seu povo.

Javé, no Salmo 113 apresenta-se como Salvador. O Deus que salva e liberta o seu povo. Javé das alturas se inclina para ver a terra, o homem que habita nela. E quando se inclina, vê o homem oprimido, pobre, no monturo e no pó. Javé arranca esse homem da opressão, da pobreza, das injustiças, salvando-o, libertando-o bem como a sua descendência e coloca-o firme assentado junto com os nobres do seu povo. Portanto esse é o tema central do Salmo 113, salvação. E o tema da salvação é reservado a Javé. É Deus quem salva o homem, é Javé o Salvador.
Re-leitura Teológica
O Deus Salvador
No Antigo Testamento Salvador é aquele que salva ou liberta, aquele que efetua um livramento, que efetua a salvação. É atributo de Deus (Is 43.11; 45.21), iniciativa de Javé, é Ele quem opera livramento. Somente Deus é o Salvador por excelência. Salvador é  atributo de Deus tal como Sua condição de Criador e Soberano e único Deus. O caráter do Deus salvador, a sua compaixão, se manifesta já na expulsão do homem do paraíso, quando num ato salvífico Deus prepara-lhe roupas para que não se envergonhe. Após o dilúvio Deus prometeu à humanidade, poupar-lhe e conceder-lhe benefícios e em Abraão começa a história de Israel com promessa de bênção e salvação. Os atos salvíficos de Javé apontam para a salvação que incluirá a todos (Is52.10).
“O Deus de Israel é o mesmo que criou a humanidade, determinando desde então a sua sorte. A história humana inteira atinge o seu clímax na história sagrada de Israel, a qual por sua vez deve desdobrar-se como história de salvação da humanidade”.[29]
A salvação se liga aos aspectos políticos de Israel e é executada por Deus que agiu no passado, salvando Israel da escravidão do Egito. Age no presente, salvando seu povo, mediante a Aliança e as suas promessas. E agirá no futuro, pois que a salvação se perpetua na história, é universal. Há um cuidado exclusivo de Javé por Israel, pois o livramento de Israel da escravidão do Egito é o tema central da obra salvadora de Deus por todo o AT. Javé se revelou a esse povo, através de atos salvíficos, e, portanto, é o Deus salvador de Israel.
A reação imediata de Israel diante da ação salvadora de Deus, passada ou futura está nos hinos de louvor. Os hinos celebram a Deus pela sua ação realizada na criação e na história.
 A ação salvadora de Javé é eterna perpassa as Escrituras, perpassa a história. A salvação é compreendida como libertação, e Deus, Javé, como libertador, salvador, porque age nos seres humanos libertando-os. Os atos salvíficos de Deus se dá na revelação bíblica como libertação de toda escravidão, pela justiça às viúvas, aos órfãos, aos estrangeiros, libertação material e concreta para a felicidade e a bem-aventurança dos pobres. Deus cumpre a sua responsabilidade de Redentor, na Aliança com o homem, sendo um Deus Salvador.
Porquanto fosse possível a salvação vir através de agentes humanos, o livramento acontecia porque Deus dava poderes a esses agentes, por isso afirma-se: “Deus é a nossa salvação” (Sl 68.19s.) Para Moisés isso fica claro quando ouve de Javé:
“Vi a aflição do meu povo no Egito, e ouvi o clamor que lhe arrancam os seus opressores; sim, conheço as suas aflições. E desci para libertá-los das mãos dos egípcios e levá-los daquela terra para uma terra boa e espaçosa...(Ex 3.7s; 3.17)”.
Em princípio a definição Salvação se aplica a qualquer tipo de libertação, para indivíduos ou comunidade. Pode provir do ameaçado que socorre a si mesmo, de homens que como instrumentos de Deus são usados para a operação da salvação. Por certo são os pobres, os fracos, os oprimidos, os doentes, a estéril (Sl 113) que têm motivos especiais para esperar de Deus a sua salvação. Portanto é evidente que é o próprio Deus mesmo que “opera a salvação”, Ele é a salvação (Ex 15.2; 14.13). É na experiência histórica que Israel tem do seu Deus, Javé, feita com fé, que reside o conceito fundamental de salvação. No Êxodo, quando são libertos do Egito no mar Vermelho, gravou-se na consciência de Israel a salvação de Javé.
“Cantai a Iahweh porque estupendamente triunfou; precipitou no mar o cavalo e o cavaleiro (Ex 15.21)”.
Ao tirar seu povo do Egito Deus tem um objetivo eterno de prender o povo a Si livrando-o de se envolver com os deuses cananeus; e assim o povo eleito experimenta a Javé como Deus Salvador, aquele que salva e liberta Israel. E é em ser salvador que está a base para o homem adorar a Deus, pois só um deus que pode salvar é digno de louvor e adoração. 
 “Israel viu na saída do Egito a garantia do futuro, qualquer que fosse ele, garantia inviolável essa da vontade salvadora de Javé e um penhor para a fé nos períodos de tribulação (Sl 74.2)”. [30]
O cântico do mar fala do povo eleito, porém o ponto alto do cântico está em que Javé salvou-o do Egito, libertou-o, é o seu redentor. A expressão : Javé tirou para fora do Egito o seu povo tornou-se na história de Israel uma confissão de fé.
Em Juízes Deus se serve de alguns indivíduos, usando-os como instrumentos e mediadores, e realiza a sua salvação (Jz 2.16). Quando Israel saía à guerra era oprimido pelas nações às vezes iam à derrota, ou às vezes à vitória. Buscavam ajuda em Javé, o Salvador, e vencendo ou sendo derrotados pelos opressores o resultado da guerra pertencia a Deus (1Sm 17,47).
A salvação partia de Deus e era a glória do rei que firmava a sua autoridade sobre o povo (Sl 21.5). Esse Deus apesar da fraqueza do homem, todas as suas limitações, pode elevá-lo e a todo um reino a uma missão de salvação. Depois de Davi, no tempo dos reis, esta consciência de uma ação salvífica de Deus através de um mediador é sentida aos poucos e em especial através da revelação da riqueza de Javé: sua realeza que possui um representante na terra e a idéia da salvação divina na figura de um reino que inclui até mesmo os povos estrangeiros.
É preciso haver um preparo para receber a salvação de Deus, buscar a Deus em oração, humilhar-se diante dEle com coração contrito, abandonar o pecado (Jz 3.9; Sl 69.1; Jó 22.29; Is 59.1). Jeremias coloca salvar e curar para a salvação que traz bem-estar espiritual e também físico (Jr 17.14).
Mesmo os que são julgados o são por Deus o Salvador (Is 45.21; Sl 76.8). Portanto a salvação realizada por Javé juiz e salvador revela o seu senhorio sobre o mundo inteiro, seu reino é universal e a sua capacidade em dar a salvação é a base que o homem tem para adorá-lo. Deus deseja que, com fé, seu povo passe por circunstâncias difíceis, buscando justiça expressando Seu amor, enquanto Ele mesmo aguarda o momento para operar a salvação 9Is 56.1; Os 10.12).
Javé é Deus salvador antes e acima de todos os deuses e para assegurar isso Deus revela seus atos salvíficos mesmo antes de realizá-los (Is 43.12)pois, não são meros acidentes históricos. Os atos salvíficos de Javé são interpretados, anunciados, determinam o relacionamento com Deus, pois que a fé é inspirada com o testemunho desses atos de um Deus que se importa, ama esse povo e caminha com ele (Jr 1.8,19).
O louvor e a adoração através dos hinos de louvor é imediata diante dos atos salvíficos de Deus: Cântico do Mar (Ex 15.1-18). A descrição por Isaías a respeito da Salvação pelo Messias prometido foi seguida por um cântico (Is 42.10ss.; 49.13; 54.1s). Nos hinos de louvor (Sl 113) Javé é exaltado pelo seu poder no universo, sua glória é exaltada, o seu poder é proclamado. O louvor pela salvação é celebrado e isso se faz em muitos salmos, no culto litúrgico.
No Novo Testamento a salvação também é o tema central. Cristo é que, realiza a salvação e é Ele mesmo o salvador e a salvação, (o soter e a soteria); sendo ato salvífico de Javé.
O Deus encarnado, Jesus Cristo, é saudado ao nascer, por Simeão, como o Salvador. A mãe do Deus-menino, em seu cântico bendiz a Deus Salvador que lembrou dos pobres e “despediu vazios os ricos”.
O Salvador oferece a vida plena, a vida em abundância (Lc 8.12; Jo 10.10); Ele próprio conduz o homem à vida eterna, pois que é “o caminho” e esse leva ao Pai que efetua a salvação. O Salvador pode salvar a alma; Ele pode salvar do passado, salva no presente e salva no futuro. O Salvador regenera o espírito, santifica a alma e glorifica o corpo.[31] Ao homem exige-se um coração contrito, arrependido, disposto e humilde como criança e que renuncie a tudo por amor a Cristo, pois que, a salvação no homem, é realizada pelo arrependimento para com Deus e a fé em Jesus Cristo
O Salvador comunica a sua vida eterna e a sua natureza divina a todos quantos o recebem dando acesso à família de Deus e ao seu reino (Jo 1.12; 3.3-6). Porque o Cristo é o Verbo é a Palavra Viva que pode ser recebida ou rejeitada.
Portanto em Cristo, Deus Salvador realiza o seu propósito na aliança eterna com o homem: que este foi criado para o louvor de sua glória, para a salvação, para a regeneração e eleito para ser filho em Cristo, por um gesto de amor e ato salvífico de Deus (Jo 3.16). Deus mesmo numa ação soberana é o salvador do homem, mediante redenção que há em Cristo.
Não encontramos com freqüência o título de Salvador nas epístolas paulinas, porém nas epístolas tardias e nas pastorais, especialmente, Deus é chamado de Salvador bem como Jesus Cristo (soter), pois querem afirmar que somente há um Salvador.  No entanto Jesus recebeu o título de Salvador após a sua morte redentora porque tirou o povo da morte e do pecado, por isso Ele é o Salvador, Ele é o Redentor.
Deus Salvador recebe também o título de Libertador e esse é tema da América Latina. Muito forte é o ser Deus como libertador dos pobres, oprimidos que clamam por uma libertação dos seus opressores que os oprimem dia e noite através de leis injustas, as quais lesam o pobre e o proíbe de viver com liberdade. Então a libertação do povo, dos pobres é o que importa para a teologia cristã.
A humanidade está entregue a uma classe dominante, embora as ideologias dominantes têm negado o domínio das classes superiores, e então as lutas sociais vão emergindo cada vez mais. Em meio às lutas sociais, surgem aqueles que lutam para nascer e viver neste mundo que os rejeita e não permite que existam, que vivam, senão que apenas sobrevivam.
Esse povo pobre tenta falar, gritar, clamar, porém tem o seu grito abafado pelos dominadores do poder, por isso precisam de um salvador, alguém que os liberte com mão forte como no Êxodo do Egito.
“A América Latina mostra o rosto de uma humanidade dividida entre vencedores e vencidos”.[32]

Conclusão 

Ao concluir essa dissertação exegética do Salmo 113 faço minhas as palavras de Maria e canto um hino de louvor e gratidão ao Deus imanente que contemplou a miséria da sua serva e desceu para salvar.

A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva (...) porque o Poderoso me fez grandes cousas. Santo é o seu nome (Lc 1.46,49).

O Deus transcendente em seu amor, em sua graça, em sua misericórdia, se revela na humanidade de Jesus Cristo se esvazia de si mesmo, contudo, divino e então desce à humanidade e diz sim, participa do humano, se engaja, é o Deus imanente, e por isso pode arrancá-lo do monturo e levantá-lo e assentá-lo juntamente com Ele nas regiões celestes.

Portanto há duas idéias claras neste Salmo que, como um hino de louvor a Deus, canta a sua grandeza no espaço e no tempo. A primeira idéia apresenta a presença do Deus que transcende, em majestade e glória, a nossa imaginação humana. É Deus Criador de tudo, domina, reina. A segunda idéia apresenta o Deus imanente, condescende com o sofrimento humano e vem em busca de levantá-lo e assentá-lo com os nobres, proporcionando harmonia com todo o universo, revelando, desta forma, ser um Deus salvador.
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[8]BROWN, C, (editor geral), O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, volume III,  p. 278.
[9] IN. BROWN, Colin, p. 278, vol. III.
[10] SCHÖKEL, Lui Alonso. CARNITI, Cecília. Salmos II (Salmos 73 – 150),  Pp. 1390 – 1396.
[11] HANS - KRAUS, Joachim, Teologia De Los Salmos. p.23.
[12] HANS – kraus, Joachim. Teologia De Los Salmos. P.25.
[13] WESTERMANN, Claus, Dicionário Teológico Manual Del Antiguo Testamento. Tomo 1, p 694.
[14] WESTERMANN, Claus, Dicionário Teológico Manual Del Antiguo Testamento.  Tomo I, P.694.
[15] IDEM. WESTERMANN, Claus. P.697-698.
[16] BAUER, Johannes B., Dicionário de Teologia Bíblica. p.133, vol. 1.
[17] BAUER, Johannes B., Dicionário de Teologia Bíblica. p.134, v.1.
[18]  HARRIS, R. Laird, (org.) Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. p. 285.
[19]  VAN DEN BORN, A. (org.), Dicionário Enciclopédico da Bíblia, p. 171.
[20] HANS -  KRAUS, Joachim, Teologia de los Salmos, p 60
[21] kraus. Pp 201-206.

[22]WESTERMANN, Claus. Teologia Do Antigo Testamento.  p.139
[23] WESTERMANN, Claus. Teologia Do Antigo Testamento. Pp.31-34.
[24] P. 1453.
[25] idem. P.1458.
[26] von RAD, Gerhard. Teologia Do Antigo Testamento . Pp. 26-30.
[27] WEISER, Artur.  Salmos. P.35.
[28] HARRIGTON, Wilfrid J.. Chave Para a Bíblia. P.355-356.
[29] HARRIS, R. Laird (org.). Dicionário Internacional de Teologia do AT. p.680.
[30] von Rad, Gerhard, Teologia do Antigo Testamento. p.183, vol.I.
[31] BANCROFT, Emery H., D.D.. Teologia Elementar, p. 227.
[32] COMBLIN, José. Antropologia Cristã. p. 193.

Nota Importante: Este trabalho de exegese foi apresentado pela aluna Marilda F Ghiraldi no ano de 1999, no Seminário Teológico Antonio de Godoy Sobrinho, como requisito parcial à obtenção o título de Bacharel. Orientador: professor Revº José Roberto Cristofani. Sou grato a Deus por este exelente trabalho e pela vida da minha irmã. Deus te abençoe.

SOLI DEO GLORIA
REV. RUBEN DARIO DAZA B.


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Para lêr em português sobre outros temas:





5.- A teologia de Libertação e o Protestantismo Brasileiro. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/06/teologia-da-libertacao-e-o.html


7.- A Vitória Definitiva do Crente Sobre a Morte: A Vida. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/07/vitoria-definitiva-do-crente-sobre.html


9.- Teologia e a Libertação na teologia latino-americana e suas contribuições na América Latina. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/08/teologia-e-libertacao-na-teologia.html


11.- A Volta de Cristo: Uma Reflexão Cristã abordando J. Moltmann. link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/o-que-penso-sobre-volta-de-cristo.html


13.- ISAÍAS : 26, 1- 6: Um Estudo Exegético. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/i-texto-1.html




17.- A CURA COMO AÇÃO SALVÍFICA DE DEUS : Teologia Bíblica do AT. e NT. O tema da Cura consta de tres escritos inéditos sobre a minha monografia no Seminário de 4º ano. Acesse o seguinte link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/cura-como-acao-salvifica-de-deus.html

18.- O Estudo do ponto de vista teológico sobre a cura como ação salvífica de Deus. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/teologia-sistematica-cura-fisica-como.html

19.- A leitura da Bíblia diante dos desafios da realidade atual. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/julio-paulo-tavares-zabatiero-diretor.html

20.-Dissertação Exegética de 1 Coríntios Cap. 13. Acesse o seguinte link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com.br/2011/11/dissertacao-exegetica-de-i-corintios.html

21.- Exegese do Antigo Testamento Salmos 113. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.mx/2012/08/exegesedo-antigo-testamento-salmo-113.html

martes, 29 de mayo de 2012

Verbos poderosos: Bendizer



Baseado no Salmo 103  

"O que você diz pelo presente da titia?", orienta a mãe. "Obrigada, titia!'  Satisfeita, a mãe finaliza: "Muito bem, filhinha". Desde pequenos somos ensinados e lembrados constantemente de que devemos reconhecer e agradecer os presentes recebidos. Parece que sofremos de um problema de percepção, insensibilidade, distração, ou esquecimento. Mesmo adultos, continuamos necessitando ser lembrados e relembrados aos modos da boa educação. Isso é mais forte ainda em nosso relacionamento com Deus.    


No contexto do Salmo, bendizer é dizer bem de Deus. É louvar,  glorificar, agradecer. Bendizer é dizer da bênção, do bem recebido, percebido, desfrutado, experimentado.  No Antigo Testamento é uma palavra usada como expressão de reconhecimento e gratidão. E é isso que o salmista está lembrando, instruindo e ordenando a si mesmo: "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR!"  
  

100 bençãos por dia
Judeus devotos desenvolveram um hábito de relacionar e repetir pelo menos cem bênçãos todos os dias. Ao memorizar e recitar todos os dias, espera-se que tenham suas consciências dilatadas da presença generosa de Deus nas coisas mais comuns da vida. Pequenas coisas revelam em si um grande Deus. O Senhor se propôs ao papel de criar todas as coisas e nos beneficiar com sua criação. A nós cabe o papel de bendizê-lo por tudo.   



Deus não tem qualquer problema de autoestima para precisar receber louvores. Não precisamos elogiá-lo para que ele se sinta bem. Ele é Deus, e ponto! Quando o bendizemos, estamos dando crédito onde o crédito é devido. Bendizer é, portanto, um ato de coerência e consciência.     


Bendizer faz bem para a saúde
Como se isso não bastasse, bendizer faz bem a nós! Cientistas tem descoberto que a gratidão é o traço emocional com maiores probabilidades de favorecer a saúde física e a recuperação de um doente. "Um coração agradecido tem a possibilidade de ser um coração saudável", concluiu o pesquisador Robert A. Emmons depois de estudar o efeito da gratidão na superação do estresse e da hipertensão. Seus estudos comprovaram que o ato de agradecer melhora o sono, diminui a ansiedade e depressão.      



Se bendizer faz bem, deixar de bendizer faz muito mal. Em certa ocasião (2 Crônicas 32.24-29), o rei Ezequias, mesmo tendo sido profundamente abençoado pelo Senhor, "não correspondeu aos benefícios que lhe foram feitos" deixando seu coração se exaltar. A consequência foi que adoeceu mortalmente. Não tinha seguido a orientação da Palavra de que  não deveria deixar seu coração se elevar achando que foi pela sua força e poder do seu braço que teve suas conquistas na vida, esquecendo-se de que é o Senhor que dá força para adquirir riquezas (Deuteronômio 8.11-18). Quando, porém, "Ezequias se humilhou por se ter exaltado o seu coração", voltou a ter saúde plena e ainda realizou muitas obras na força do Senhor.


Segundo o Salmo 103, o que fazer então? Bendizer a Deus (v1). Quem deve bendizer? Todos e tudo. Que eu bendiga (v 1, 2), que vocês bendigam (20-22). Como bendizer? Com tudo o que há em mim (v1).  Por que bendizer? Por todos os seus benefícios (v 2), pelas bênçãos pessoais (vv3-5) e pelas coletivas (vv 6-19). Onde bendizer? Em todos os lugares (v 22).    


Comece com palavras simples. Aliás, que tal fazer o exercício de escrever no papel pelo menos cem bênçãos? Ao desenvolver esse hábito, prepare-se para os efeitos poderosos de conjugar o verbo bendizer ao Senhor. 


SOLI DEO GLORIA
REV. RUBEN DARIO DAZA BERDUGO


domingo, 6 de mayo de 2012

El Credo Apostólico: Padeció...



                                                 Grünewald, Matthias : The Crucifixion



Capítulo XV 

PADECIO…. 

La vida de Jesucristo no es triunfo como algunos creen, sino humillación, no es éxito, sino, fracaso; no es gozo, sino sufrimiento, dolor y padecimiento. Precisamente por eso pone esa vida de manifiesto la rebelión humana contra Dios y su consecuencia necesaria: la ha de Dios. Pero también pone esa vida de manifiesto la misericordia con que Dios ha hecho suyo lo que era del hombre, esto es, su humillación, su fracaso y su sufrimiento, a fin de que dejara de ser para siempre cosa del hombre. 

El Catecismo de Calvino hace constar con respecto a este punto como cosa extraña que en el Credo nada más se dice de la vida de Jesús hasta la Pasión, porque lo hasta entonces sucedido en dicha vida no pertenece a lo "sustancial de nuestra salvación". Permítame objetar que aquí yerra Calvino. ¿Es posible decir que lo demás de la vida de Jesús no es sustancial para nuestra redención? ¿Entonces qué significaría o qué debería significar? ¿Acaso una historia de la que se podría prescindir no es de importancia dentro de los planes de salvación? Para mí, en toda la vida de Jesús se trata de aquello que inicia el artículo del Credo, diciendo: "Padeció..." Tenemos aquí un buen ejemplo de cómo también los discípulos de un gran maestro ven las cosas, a veces, más claras que él. Porque en el Catecismo de Heidelberg, compuesto por Oleviano y Ursino, discípulos ambos de Calvino, expone la cuestión N" 37: 

"¿Qué entiendes tú por la breve palabra "padeció"? R. — Que él, durante toda su vida, y especialmente al final de ella, padeció en cuerpo y alma la ira de Dios contra el pecado de la humanidad entera". 

Podría aducirse en favor de la opinión de Calvino, claro está, que ni el apóstol Pablo ni, en general, las Epístolas del Nuevo Testamento hacen casi referencia a ese "durante toda su vida", y que los mismos Apóstoles, por su parte, parecen notablemente poco interesados en ello, a juzgar por los Hechos de los Apóstoles. Al parecer, pero sólo al parecer, sólo tienen presente que Jesús, traicionado por los judíos, fue entregado a los paganos y crucificado y que resucitó de entre los muertos. Sin embargo, el hecho de que la Iglesia primitiva concentrase toda su atención en el Crucificado y Resucitado no es de carácter exclusivo, sino, al contrario, inclusivo: El que Cristo fuera muerto y resucitara es, sin duda, una reducción de toda la vida de Jesús, pero ha de verse en ello, justamente, también su desarrollo. La vida  entera de Jesús está puesta bajo la palabra "padeció...". 

Este hecho tan insólito nos sorprende,  pues con lo que hasta ahora hemos venido exponiendo no estamos suficientemente preparados. Jesucristo, el Hijo Unigénito, nuestro Señor, concebido por el Espíritu Santo, nacido de María virgen, verdadero Hijo de Dios y verdadero hijo del hombre... ¿En qué relación está con todo esto la explicación de su vida entera bajo el designio de "padeció"? En realidad, se espera otra cosa: algo luminoso y radiante, triunfante, logradísimo y gozoso. Y resulta que no oímos nada de eso, antes al contrario: Lo que domina sobre toda esa vida es la expresión "padeció". ¿Y esto es el final? Sin duda, conviene no olvidar cómo acaba esa vida entera: "Resucitó al tercer día de entre los muertos". Además, no faltan tampoco en la vida de Jesús atisbos de futuro gozo y de la victoria venidera;  que no en vano se nos habla mucho de las "bienaventuranzas" y se menciona con frecuencia la parábola o símil de la alegría de las bodas. 

Aun cuando hayamos de hacer constar con extrañeza que vemos a Jesús llorar varias veces, pero jamás reír, confesemos que a través de sus sufrimientos siempre palpita la alegría y el gozo en la naturaleza que le rodeaba, en los niños y, sobre todo, en su propia existencia, en su misión. Una vez se nos dice que se gozó con júbilo del hecho de que Dios ocultara lo esencial a los sabios para revelárselo a los sencillos. ¿Y no hay triunfo y alegría en los milagros de Jesús? ¡Con ellos irrumpen la curación y la ayuda en la vida de los hombres! Y en ellos parece revelarse a ojos vistas quién es el que tales cosas obra. También  en la historia de la Transfiguración, que nos cuenta cómo los discípulos vieron a Jesús más blanco que cuanta blancura pueda imaginarse en este mundo, se muestra lo "otro"; se hace visible de antemano el final de su vida, y aún podría decirse que se ve su principio y su origen. Indudablemente tiene Bengel razón cuando dice que podrían cementarse esos pasajes precedentes a la resurrección, poniendo: spirant resurrectionem. No creo que se puede decir algo más de esto. 

Hay un aroma que emana del principio y del final, un aroma de la divinidad victoriosa que se mueve y obra entre los hombres. Pero la presencia de esa vida es realmente el sufrimiento, y esto desde un principio. Los evangelistas Mateo y Lucas vieron, sin duda alguna, la infancia de Jesús, su nacimiento en el establo de Belem, bajo el signo del padecimiento. Jesús, el hombre, sigue siendo durante toda su vida un perseguido, un extraño dentro de su propia familia (¡y qué palabras tan escandalizadoras llega a decir!) y de su pueblo, un extraño en el campo de la política, de la iglesia y de la cultura. En cuanto a su camino, ¡es claramente un camino de fracasos! ¡Qué completamente solo y atacado se encuentra entre los hombres, entre los dirigentes de su propio pueblo, pero también entre la masa e incluso  entre sus propios discípulos! En ese círculo reducidísimo estará el que le hace traición, y el hombre del cual él afirma: "Tú eres roca..." será uno que le va a negar tres veces. Finalmente, son los mismos discípulos de quienes se dice: "Entonces todos le abandonaron...". El pueblo,  por su parte, grita  a coro: "Crucifícale, crucifícale...". 

Toda la vida de Jesús se desarrolla en semejante soledad y está, así pues, bajo la sombra de la cruz. Y si el resplandor de la resurrección ilumina esa vida alguna que otra vez, eso es la excepción que confirma la regla. El hijo del hombre "tiene que subir a Jerusalén", tiene que ser allí condenado, flagelado y crucificado..., y resucitar  al tercer día. Pero,  en primer lugar, ese "tiene que" lo domina todo hasta conducirle al patíbulo. ¿Qué sentido tiene esto? ¿No es, acaso, lo contrario de lo que podría esperarse de aquella noticia de que Dios se hizo hombre? Aquí se sufre. Adviértase que por vez primera nos sale al encuentro en el Credo, directamente, el gran problema de la maldad y del sufrimiento. Cierto es que en varias ocasiones ya nos hemos tenido que referir a ello. Pero textualmente tomado, es aquí y ahora donde por primera vez hallamos una indicación referente a que en las relaciones entre el Creador y la criatura no está todo en orden, sino que aquí impera una injusticia y una aniquilación; que hay padecimiento y dolores. Es aquí dónde empezamos a ver, porque entra ahora en nuestro campo visual, el lado sombrío de la existencia, lo cual no fue así en el primer artículo, que habla del Dios creador. Lo malo se presenta aquí como no se presentó al describir la criatura como cielo y tierra. Ahora, al describir la existencia del Creador que se hace criatura, se presenta el mal, y a lo lejos, se ve también a la muerte. 
                                                
Juan Alberto Bengel (1687-1752): Teólogo alemán de sano pietismo, autor del Gnomon Novi Testatnenti, que es el Nuevo Testamento anotado en latín de manera tan profunda que hasta hoy tiene gran valor. N. del T. ¡Respiran   resurrección! Este hecho obliga en todo caso a guardar reserva frente a las descripciones hasta cierto punto independientes de lo malo y del mal. Cuando, más tarde, se practica esa reserva, se ha pasado más o menos por alto que lo malo y  el mal empiezan a manifestarse al mundo en conexión con Jesucristo. El padeció, o sea, él ha hecho visible lo que es el mal y lo que es la rebelión del hombre contra Dios. ¡Qué sabemos nosotros, al fin, del mal y del  pecado, qué de lo que es sufrir y lo qué significa la muerte! Aquí y ahora lo aprendemos; aquí se presentan estas tinieblas en su realidad y su verdad; aquí se eleva una acusación y se ejecuta un castigo, aquí se hace realmente visible la relación existente entre Dios y  el hombre. ¡Qué son nuestros suspiros y qué todo cuanto el hombre pretende saber acerca de su necedad y su pecado y sobre la perdición del mundo! ¿Qué vale toda especulación sobre el sufrir y la muerte al lado de lo que aquí se hace visible? El, él ha padecido; el Dios verdadero y hombre verdadero. Todo hablar independiente, es decir, independiente de Cristo, tratándose de esta cuestión, resultará necesariamente pobre e imperfecto. 

Jamás se hablará concretamente de esta cuestión, a no ser que se parta del centro que es Cristo. Hoy día se ve cómo el hombre puede sufrir los más duros golpes del destino y, sin embargo, salir indemne de todo ello como quien aguanta un simple chaparrón. Sabemos ya que ni el dolor ni la maldad nos alcanzan en toda su verdadera realidad, y por eso podemos sustraernos repetidamente al conocimiento de nuestra culpa y nuestro pecado. Únicamente llegaremos al verdadero conocimiento cuando reconozcamos' esto: El, el Dios y hombre verdadero, ha sufrido. O dicho de otro modo: Para saber qué es el sufrimiento es preciso tener fe. "Aquí" —en Cristo— se padeció. Comparado con lo que "aquí" sucedió, lo demás, lo que llamamos padecimiento, no es verdadero padecimiento. Sólo desde aquí es posible reconocer cómo y por qué en todo el cosmos, tanto oculta como públicamente, se sufre; ello se reconoce como participación del padecimiento que El padeció. 

Al fijar la atención en la frase "El padeció", partiremos, en primer lugar, de lo siguiente: Fue Dios, hecho hombre en Jesucristo, el que  tuvo que sufrir; no hubo de sufrir bajo la imperfección del mundo de las criaturas, ni tampoco bajo cualquier conexión natural, sino bajo los hombres, a causa de la actitud de éstos para con Él. Desde Belem hasta la cruz se ve El abandonado por sus discípulos, desechado, perseguido y, finalmente, acusado, condenado y crucificado por el mundo que le rodea. He aquí el ataque del ¿hombre contra Él, contra Dios mismo. Es aquí donde se pone al descubierto la rebelión del hombre contra Dios. El Hijo de Dios no es Aceptado, sino desechado. Los hombres sólo saben hacer con el Hijo de Dios lo que, según la parábola, hicieron los labradores malvados: ¡Ahí viene el hijo y heredero; matémosle y quedémonos con la herencia!  Lucas 20:14.

 Así es como contesta el hombre a la presencia magnamente misericordiosa de Dios: A la gracia divina se opone un no lleno de odio. El pueblo de Israel es el que desecha en Jesús a su Mesías, a su rey. El pueblo de Israel no sabe hacer otra cosa con el guía prometido a lo largo de toda su historia (gracias al cual esta historia tiene sentido), que entregarle a los gentiles para que lo maten. Jesús muere condenado por la justicia romana por haber sido entregado por Israel a los gentiles. Así se comporta Israel con su Salvador. Y el mundo gentil, encarnado en Pilatos, no puede hacer otra cosa, por su parte, sino aceptar al reo entregado. Ese mundo cumple la sentencia pronunciada por los judíos y cumpliéndola toma también parte en la rebelión contra Dios. Lo que hace en este caso Israel es la revelación de una situación habida ya en toda la historia de Israel: Los hombres enviados por Dios no son aceptados con gozo como hombres que ayudan, consuelan y curan, sino que a partir de Moisés y concluyendo con Cristo, el hombre les grita a la                          cara un rotundo no. Y este no, se  dirige directamente contra  Dios. De modo que ahora, con respecto a esa presencia de Dios última, más íntima, directa, se manifiesta la absoluta lejanía del hombre frente a Dios. Aquí se manifiesta lo que es el pecado. Pecado significa rechazar la gracia divina que se ha acercado a nosotros, que nos es  presente; rechazarla como Tal. Israel piensa poder ayudarse por sí mismo. Desde este punto de vista hemos de confesar que todo lo que nos parece reconocer como pecado, es algo simplemente pequeño y secundario y, al fin, una mera aplicación de aquel pecado original. Del mismo modo que en el Antiguo Testamento todos los mandamientos no tienen otro objeto sino el de sujetar al pueblo de Israel en el pacto de la gracia divina, así también resulta la  trasgresión de todos los mandamientos tan fatal y malvada por manifestarse en ello la protesta del hombre contra la gracia de Dios. Jesús, el Hijo de Dios, El que haya padecido bajo judíos y gentiles pone al  descubierto (y no hay otra cosa que lo ponga verdaderamente) lo malo. 

Teniendo esto en cuenta, es posible comprender cómo y hasta qué punto se halla el hombre bajo acusación y de qué es acusado. Nos hallamos aquí con la raíz de toda transgresión grande o pequeña. Mientras en todo cuanto pequemos en grande o en pequeño y nos seamos deudores unos a otros no reconozcamos esa raíz ni nos veamos acusados por el sufrimiento de Cristo, ni nos reconozcamos a nosotros mismos en aquella rebelión realizada por el hombre contra Dios; mientras no suceda todo ésto, serán vanos todo nuestro reconocimiento de la culpa y nuestra confesión de pecados. Porque sin aquel reconocimiento todo reconocimiento de culpa será algo de lo que podremos desprendernos..., como el perro cuando cae en el agua que se sacude el cuerpo y su pelo mojado y prosigue su camino. En tanto no se haya visto la maldad en su verdadera naturaleza, no se está obligado (aunque se hable de la propia culpa con el mayor énfasis) a confesar: "He pecado contra el cielo y contra Ti". Este "contra Ti" se revela precisamente aquí, y se revela como sustancia y sentido de toda culpa aislada en que podamos hallarnos. Con esto no se convierte lo aislado en secundario. Lo que el hombre realiza  en acciones aisladas —desde la acción de Pilatos hasta la de Judas— es desechar la gracia de Dios, Pero lo que el hombre realiza, cobra todo su peso en el momento en que se realiza contra Dios.  Esencial para nuestro conocimiento del mal es que reconozcamos esto: 
Sobre el hombre pesa la acusación de haber ofendido a Dios. Sólo podemos ver la deuda infinita que tenemos para con Dios, pero con el Dios que se hizo hombre. Y si nos hacemos deudores —culpables— de los hombres, ello nos recuerda automáticamente a aquel hombre. Porque todo hombre al cual hayamos ofendido, y atormentado es uno de aquéllos a quienes Jesucristo llamó hermanos suyos. Y lo que le hayamos hecho a Cristo, eso se lo hemos hecho a Dios. 
Es innegable, por otro lado, que la vida de Jesús y asimismo su pasión son simplemente también la vida de un hombre. Pensemos, por ejemplo, en las obras maestras del arte cristiano; en la visión que Gruenewald tuvo del Crucificado doliente o en los intentos menos inteligentes de los "Calvarios", obra de la piedad católica: Todo ello es también el hombre que sufre y que desciende tramo a tramo en las angustias de la tentación, de la crucifixión y, finalmente, de la muerte. Sin embargo, tampoco mirándolo así, se trata puramente del hombre en su imperfección, atormentado como ser mortal a causa de no ser Dios; porque la figura de Jesús atormentado es, sin duda, la de un sentenciado,  la de un reo.'La causa del padecimiento de Jesús es desde un principio un acto forense, explícitamente visible, de su pueblo." Los judíos ven en él al supuesto Mesías, distinto del que esperaban y contra cuyas pretensiones sólo les cabe, en consecuencia, la protesta. Pensemos en la actitud de los fariseos y de los demás hasta el Sinedrio: Sucede que se falla una sentencia. Esta es presentada al juez secular y ejecutada por Pilatos. Justamente los evangelios han puesto todo su empeño en hacer resaltar este acto forense: Jesús es el acusado, condenado y castigado. Y es en este acto jurídico donde queda al descubierto la rebelión del hombre contra Dios.

Pero en ella se manifiesta también la ira de Dios contra el hombre. En el Catecismo de Heidelberg, “padeció” significa: Jesús soportó durante toda su vida la ira de Dios. Ser hombre significa ante Dios haber merecido su ira. En esa unidad de Dios y hombre ha de ser así que el hombre es el condenado y castigado. Jesús, como hombre, en su unidad con Dios es la imagen del hombre castigado por Dios. También la justicia secular que ejecuta esa sentencia lo hace conforme a la voluntad de Dios. El Hijo de Dios se hace hombre para que en él se haga visible el hombre bajo la ira divina. El Hijo del hombre ''tiene que" padecer y ser entregado y crucificado, dice el Nuevo Testamento. En ese padecimiento se hace patente la conexión entre la culpa infinita y la expiación que le 'sigue  necesariamente; se hace, asimismo, visible que despreciando la gracia divina el hombre corre hacia su perdición. Es aquí, donde Dios mismo se ha hecho hombre, cuando se revela la más profunda verdad de la vida humana: el padecimiento total que corresponde al pecado total. Ser hombre es ser delante de Dios lo que fue Jesús: Portador de la ira de Dios. Lo nuestro es esto: ¡Acabar en el patíbulo! Pero no es esto lo último: lo último no es la rebelión del hombre, ni tampoco la ira de Dios. antes bien, el más profundo misterio de Dios es que Dios mismo, en el hombre —Jesucristo— no se recata de ponerse en lugar del hombre pecador para hacerse igual a él. (Dios hizo pecado a aquel que no tenía pecado: un rebelde, y para sufrir el padecimiento de tal). ¡Dios quiso ser la culpa total y la expiación total! Esto es lo que Dios ha hecho en Jesucristo.

Cierto es que esto constituye por excelencia lo oculto de esa vida que no se manifiesta hasta la resurrección de Cristo. Sería una torcida interpretación del sufrimiento de Cristo, si fuéramos a detenernos a lamentar al hombre y su destino. El sufrimiento de Cristo, no se reduce, ni mucho menos, a pedir se proteste contra el hombre o se gane espanto ante la ira divina...; esto sólo es un lado del padecimiento, incluso el Antiguo Testamento ya va más allá. El Pacto de Paz tiene también validez extensible a esa imagen rebelde y terrible del hombre. ¡Es Dios mismo el que se hace culpable y expía la culpa! Así se ve claramente el límite: el socorro total contra la culpa total. Lo último es también lo primero: Dios está presente, y su bondad no tiene fin. El significado de esto lo veremos con claridad  en una ilación que luego expondremos. Pasamos ahora a tratar una observación que se introduce aquí de manera extraña  con las palabras: bajo Poncio Pilatos. 
                                                
SOLI DEO GLORIA


Rev. RUBEN DARIO DAZA