domingo, 18 de septiembre de 2011

A leitura da Bíblia diante dos desafios da realidade atual





Júlio Paulo Tavares Zabatiero: Diretor da Faculdade Teológica Sul Americana

Sou professor da Escola Superior de Teologia em São Leopoldo-RS.
Dr. em Teologia, na área de Antigo Testamento, e membro do Conselho Editorial da revista Estudos Bíblicos.
Dr. Júlio Paulo Tavares Zabatiero (PhD)
Brasileño, Doctor en teología por el Instituto Ecumênico de Pos Graduaçao de São Leopoldo - Universidad Federal de Rio Grande do Sul (Brasil). Profesor de Antiguo Testamento en la Escola Superior de Teologia.
A leitura da Bíblia diante dos desafios da realidade atual

Estamos juntos aqui na FTSA, pela primeira vez, iniciando uma caminhada para a qual Deus nos chamou e reuniu. De forma parecida com a travessia do deserto pelos filhos de Abraão liber­tados do Egito, esta caminhada terá seus momentos difíceis, conflitos, provações.

Terá, também, a presença de Deus a nos guiar de modo que sejamos capazes de encontrar os oásis para nosso refrigério, a disciplina para o aprendizado e o amor para a convivência fraternal. Estamos juntos, professores(as) e alunos(as), principalmente para aprendermos a servir melhor a Deus e a conhe­cê-Lo mais intensa e profundamente.

Aprendizado (discipulado se quiserem um termo bíblico) é o fator que nos une aqui sob a direção divina. Aprender a conviver como cristãos, aprender a agir como cristãos vocacionados, aprender a discernir a realidade, aprender a estudar a Palavra de Deus e as ações de Deus no passado e no presente. A realidade atual traz complexos e interessantes desafios para as Igrejas Cristãs e para seus ministros e ministras, em particular.

As mudanças na atitude religiosa das pessoas, cada vez mais pluralistas e consumistas; mudanças nas relações entre as instituições eclesiásticas, cada vez mais marcadas pela competição e concorrência; mudanças na compreensão do papel da Igreja e da fé cristã na sociedade, são, entre outras, fonte de desafios missionários para a Igreja de Cristo.

Nesta noite, porém, gostaria de dirigir nossa atenção a um outro desafio da realidade atual para a fé cristã e para nós em particular aqui na Faculdade. Nós que vivemos em uma sociedade em que a leitura de textos cada vez mais é substituída pelo assistir às imagens da TV, cinema e internet, precisamos rever a nossa maneira de ler a Bíblia, a Palavra de Deus.

A fé cristã foi chamada, du­rante muito tempo, como a religião do livro, tendo a Bíblia sido o guia inspirador da vida da Igreja, suas reformas, suas renovações, seu aperfeiçoamento. Hoje em dia, porém, cada vez menos im­pacto o livro realiza sobre as pessoas de fé. Cada vez mais esse impacto é substituído pela forçadas imagens, dos testemunhos, dos discursos emotivos, das canções e rituais cúlticos.

Diante dessa realidade, como compreender e como realizar a agradável tarefa de estudar as Escrituras? Não iremos, em uma única aula, responder a essa pergunta na sua integralidade. Por isso, quero focalizar nossa atenção sobre dois modos de ler a Bíblia na história recente da Igreja Cristã, o primeiro deles, predominante nos séculos XVIII - XX e que, em parte tem uma responsabi­lidade no esvaziamento da força do livro na vida cristã. O segundo deles, mais recente, ainda não conseguiu se firmar, mas se apresenta como uma resposta possível ao desafio da sociedade da imagem.

1. A leitura da Bíblia: uma pesquisa agônica

Nos séculos XVIII-XX, perdoada a simplificação excessiva, predominou um modelo de leitura caracterizado pelo confronto e conflito entre verdades opostas e concorrentes entre si. Na primeira parte desse período, simultaneamente ao desenvolvimento do iluminismo e do positivismo na filo­sofia e nas ciências em geral, a leitura da Bíblia ficou polarizada pela disputa entre o dogma e a ciência, entre a submissão à doutrina e autoridade religiosa e a autonomia do ser humano diante de toda e qualquer autoridade, humana ou divina.

Cada lado dessa disputa estabeleceu seus pró­prios critérios de validade, recusando ao outro lado a possibilidade de provar a sua própria verda­de. Pelo que se pode chamar este modelo de leitura de pesquisa agônica. Por exemplo, foi o período no qual se desenvolveu o árido debate entre criação e evolução. Os defensores de uma leitura científica da Bíblia colocaram em xeque os relatos bíblicos da criação, julgando-os de acordo com os critérios da nascente ciência cosmológica.

Por sua vez, os defenso­res de uma leitura devota da Bíblia atacaram a leitura científica como a mãe de heresias e respon­sável pela descrença em Deus e seu poder. Ambos os lados, porém, compraram as suas minas no mesmo fornecedor: a ciência histórica. Desenvolveram-se, então, os métodos da exegese his­tórico-gramatical do lado das instituições eclesiásticas, e os métodos da exegese histórico-crítica do lado das instituições acadêmicas. Até hoje são esses os métodos mais comumente ensinados pelos manuais de hermenêutica ou de exegese usados seja nos centros de formação eclesiásti­cos, seja nos centros de formação com visão científica.

Entretanto, não se conseguiu perceber, nesse período, a inutilidade da luta, a má colocação dos problemas discutidos, a impossibilidade de uma verdade prevalecer sobre a outra. Não se conseguiu perceber, enfim, que a verdade reli­giosa é de um tipo distinto da verdade científica, e que ambas não competem necessariamente entre si, mas sim, ambas contra a ideologia, a ignorância, a ilusão do engano.

Já no século XX, esses embates se ampliaram e mudaram um pouco o foco. A velha luta entre o dogma e a lei científica foi se modificando nos dois lados. No lado da igreja, o dogma doutrinário foi sendo substituído pelo dogma da experiência e, no lado oponente, a ciência foi dando cada vez mais lugar à técnica. A luta passou a ser entre a forma certa de experimentar a realidade e modifi­cá-la através da ação.

O velho dualismo espírito/matéria recebeu a nova roupagem do dualismo da técnica: ter a experiência certa da fé e fazer corretamente a missão cristã versus ter a experi­ência correta do saber e fazer corretamente a sociedade funcionar. Ambos os lados tinham em co­mum o desejo de resolver os males sociais, tais como a pobreza, o alcoolismo, a violência, etc.

A Bíblia passa a ser, então, um livro que ou deve ser lido em busca da verdade a ser vivida, ou um livro a ser criticado por ser incapaz de solucionar problemas modernos.

Mas, ao fim, em qualquer dos casos a Bíblia perde a sua força, pois deixa de ser regra e passa a ser regrada pela experiên­cia ou pela técnica. Nesse embate, não se modificou a forma do combate: permanece a luta entre a exegese histórico-gramatical e a exegese histórico-crítica, apenas mais refinadas em suas meto­dologias e sutilezas. Mas as leituras científica e dogmática receberam novos ataques nessa guerra hermenêutica. Além do antigo inimigo eclesiástico, dentro do próprio mundo científico surgiram duas novas fren­tes de combate. Uma delas, forte nos países do chamado Primeiro Mundo, atacava a aridez das leituras tradicionais, e passava a exigir que a leitura da Bíblia levasse em consideração as ques­tões éticas e estéticas, ou em outras palavras, a questão não era mais a de descobrir a verdade, mas a justiça e a beleza na Escritura. A exegese histórica passa a ser questionada e começam a surgir modelos exegéticos inspirados na crítica literária, na psicologia, nas ciência sociais em ge­ral. A segunda, mais forte no chamado Terceiro Mundo, questionava as leituras científica e dog­mática a partir das lutas pela transformação concreta da sociedade.

Ler a Bíblia tornou-se uma questão de militância, e não uma questão de conhecimento. A Bíblia passa a ser vista como fonte para a presença dos cristãos nas lutas sociais, políticas, culturais, de gênero, etc. Além dos méto­dos históricos, dos novos métodos inspirados em outras ciências humanas, surgiram as novas perspectivas de leitura – ler a Bíblia a partir do pobre, do negro, do índio, da mulher, do oprimido, etc. Agora estão em jogo não só as interpretações corretas da Bíblia, mas a própria leitura em si passa a ser objeto da disputa. As perguntas se ampliam, agora é preciso definir quem pode ler a Bíblia, o quê pode ser lido, como se deve ler, para quê ler a Bíblia, contra quem ler a Bíblia, e por que ler a Escritura. Ao fim e ao cabo desses embates, quem acabou vitorioso foi o lado da ciência, na medida em que ler a Bíblia passou a ser uma questão de técnica , a técnica certa para desco­brir a verdade, para descobrir a beleza, para descobrir a justiça. Consequentemente, o campo de batalha fica cada vez mais complicado, as estratégias se alteram, os perigos se avolumam, e a lei­tura da Bíblia cada vez mais se torna uma questão para especialistas, e não mais para o povo em geral.

2. A leitura da Bíblia: um diálogo construtivo.

Reconhecidos os limites do modelo predominante, desde os anos oitenta do século passado um novo modelo de leitura está sendo construído, como, e.g., na leitura popular latino-americana, nas leituras contextualizadas na África e Ásia. É nesse processo de aprendizado e de construção de um outro modo de ler a Bíblia que a FTSA se insere. Como um modelo novo, os seus contor­nos todos ainda não estão claramente definidos, o que se nos apresenta como uma santa aventu­ra pessoal, acadêmica e devocional. Redescobrir o impacto e a força do livro santo é o que nos anima, professores(as) e alunos(as) da FTSA – especialmente os que estamos envolvidos com as disciplinas de hermenêutica, exegese e teologia bíblica. Com vistas a descortinar os principais horizontes desse novo modelo, vou concluir nossa con­versa hoje com breves reflexões sobre os

Objetivos e as estratégias da leitura bíblica no modelo dialogal. Ler a Bíblia visa, neste modelo, a construir consensos , ou seja, acordos fraternos sobre a von­tade de Deus na atualidade, que sejam:

(a) eticamente válidos, pois nem todos os meios são justificados pelos fins – ou, nem tudo que funciona, ou que dá prazer, é justo, é bom, é santo;

(b) cognitivamente verdadeiros, pois nem todas as experiências, doutrinas e conceitos que de­fendemos passam pelo crivo da Sagrada Escritura; e

(c) pessoalmente verídicos, pois muitas vezes ocultamos a verdade pessoal e institucional atrás das máscaras do poder, do dinheiro, do prestígio ou do saber. Ler a Bíblia em busca de consensos missionais depende de uma estratégia em que os sujeitos da leitura não sejam mais os indivíduos isolados, os especialistas da técnica, mas sejam todos os participantes da comunidade de fé. Depende de uma estratégia em que as diferentes contribui­ções de cada pessoa – tenha ela formação teológica ou não – possam ser:

(a) criticamente examinadas, ou seja, que a opinião de cada um seja demonstrada e provada e não apenas apoiada ou aceita por causa da autoridade acadêmica ou política ou espiritual de quem a formula;

(b) livremente apresentadas, ou seja, que cada membro da comunidade da fé possa falar, se ex­por, apresentar aos demais a sua visão da fé, da vida, da missão, da vontade de Deus conforme ele ou ela a vê na Escritura; e

(c) responsavelmente partilhadas, ou seja, que não se fale apenas por falar, que não se fale apenas a partir do achômetro de cada um, mas que cada participante do diálogo com a Bíblia e apartir da Bíblia, seja responsável em sua contribuição – tendo examinado bem o que leu e o que quer dizer – como os antigos judeus de Beréia que, ao ouvir a explanação da Bíblia pelos missio­nários cristãos, foram examinar cuidadosamente o valor e a validade da nova forma de ler a Bíblia que a fé cristã estava trazendo. Traduzindo estas reflexões para a linguagem da prática cotidiana, aqui na FTSA nós queremos aprender a ler a Bíblia com seriedade acadêmica, ética e pessoal.

Ler a Bíblia sem o comodismo do hábito de achar na Bíblia aquilo que nos já sabemos ou sentimos; sem a atitude do especialista– da pessoa que vai aprender o jeito certo para, depois, dizer à igreja qual é a verdade que ela deve crer e praticar; ler a Bíblia sem a preguiça ou o medo estudantis de, ao invés de estudar a Bíblia, com todo o trabalho que a leitura exige, ler as leituras que outros fizeram da Bíblia e repro­duzir as interpretações já feitas e presentes no comentários bíblicos, nos dicionários teológicos, nos sermões, nos artigos, etc...Queremos aprender a ler a Bíblia como quem busca descobrir os tesouros que Deus colocou à disposição da humanidade, sabendo que aquele que encontrou um tesouro no campo vai, vende tudo o que tem, desfaz-se de seus antigos tesouros, e compra o campo a fim de – junto com todo o povo de Deus – garimpar e encontrar novos e mais preciosos tesouros que Deus tem para nos dar.

Sobre o Autor:

Júlio Zabatiero é mestre e doutor em Teologia, e professor de Bíblia na Escola Superior de Teologia na Faculdade Teológica Sul-americana e no Seminário Teológico Servo de Cristo. É presidente da Fraternidade Teológica Sul-americana — Setor Brasil.

PELA COROA REAL DO SALVADOR !


Para lêr em portuês sobre outros temas:

1.- Jesus tem o controle de toda a Natureza. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/03/jesus-senhor-de-toda-natureza.html

2.- Jesus vem a nosso encontro. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/04/jesus-vem-nosso-encontro.html

3.- Pascoa, permaneçam em mim. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/04/pascoa-permanecam-em-mim_03.html

4.- As Palmas das Mãos de Deus. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/06/as-palmas-das-maos-de-deus.html

5.- A teologia de Libertação e o Protestantismo Brasileiro. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/06/teologia-da-libertacao-e-o.html

6.- Aquele com quem se pode contar. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/07/aquele-com-quem-se-pode-contar.html

7.- A Vitória Definitiva do Crente Sobre a Morte: A Vida. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/07/vitoria-definitiva-do-crente-sobre.html

8.- Ensina-os a contar os nossos dias.Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/08/ensina-nos-contar-os-nossos-dias.html

9.- Teologia e a Libertação na teologia latino-americana e suas contribuições na América Latina. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/08/teologia-e-libertacao-na-teologia.html

10.- Reflexão Pastoral: Provérbios 13,22. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/reflexao-pastoral-proverbios-1322.html

11.- A Volta de Cristo: Uma Reflexão Cristã abordando J. Moltmann. link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/o-que-penso-sobre-volta-de-cristo.html

12.- Deus é Luz: Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/deus-e-luz.html

13.- ISAÍAS : 26, 1- 6: Um Estudo Exegético. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/i-texto-1.html

14.- ECUMENISMO: Uma reflexão Teológica. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/ecumenismo-uma-reflexao-teologica.html

15.- PAUL TILLICH: Dinâmica da Fé. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/paul-tillich-dinamica-da-fe.html

16.- ISAÍAS : 63, 1- 6: Um Estudo Exegético. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/isaias-63-1-6-um-estudo-exegetico.html

17.- A CURA COMO AÇÃO SALVÍFICA DE DEUS : Teologia Bíblica do AT. e NT. O tema da Cura consta de tres escritos inéditos sobre a minha monografia no Seminário de 4º ano. Acesse o seguinte link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/cura-como-acao-salvifica-de-deus.html

18.- O Estudo do ponto de vista teológico sobre a cura como ação salvífica de Deus. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/teologia-sistematica-cura-fisica-como.html

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