domingo, 11 de septiembre de 2011

Reflexão Pastoral: Provérbios 13,22




Comentando Provérbios 13,22

“O homem de bem deixa herança aos filhos de seus filhos, mas a riqueza do pecador é depositada para o justo”.

Algumas passagens paralelas: Jó 27:16-17; Provérbios 28:8; Eclesiastes 2:24-26; Tiago 5:1-3.

A interpretação de textos como Provérbios não é tão simples, pois eles são ditos populares de sabedoria que eram muito utilizados na época em que foram escritos. Via de regra, tais ditados populares respeitam questões culturais que estão além da compreensão moderna.

Alguns pontos a considerar:


1. Conceito de bênção e prosperidade: No A.T. a bênção significava a posse de terra fértil e a fertilidade da esposa. Abençoado é o homem que tem terras férteis e muitos filhos para trabalhar com ele na terra para, então, produzir riquezas. Os exemplos mais comuns são: (1) Jó que tinha uma extensão considerável de terra para criar seus rebanhos e tinha 7 filhos e possivelmente 3 genros para a coordenação do trabalho de seus servos – por isso era próspero. E (2) Abraão, que se queixava de que tinha uma promessa de bênção, mas, não tinha herdeiros e Deus lhe disse que ele teria uma descendência que nunca se poderia contar e que onde ele pudesse visualizar iria ser por limites de sua herdade (Gn 15).

2. O significado de herança parte da perspectiva de que uma família na qual o pai tinha muitos filhos (1ª parte da bênção) iria administrar coerentemente as terras ou outros negócios (2ª parte da bênção), e esta família seguiria na administração por gerações – este é o perfil do abençoado nos Salmos 127 e 128: confiar no sustento do Senhor, investir coerentemente na família e ver os filhos dos filhos (gerações advindas dessa família matriz).

3. Jó 27:16-17, paralelo de Pv 13:22, pode ser o episódio de onde foi gerado o dito popular que veio a ser provérbio bíblico. Se esta possibilidade estiver correta, a questão da discussão sobre o direito de herança surge dos questionamentos dos amigos de Jó, que na tentativa de compreenderem sua situação de perdas (posses e filhos, portanto, maldição, o oposto da bênção), argumentam em defesa da maldição como castigo para quem está em pecado. Na lógica deles, Jó estava entregando seus bens para outros. O problema é: “esses outros”, que saquearam as riquezas de Jó, não pode ser identificado como “depósito para o justo” (Pv 13:22b), pois o justo e reto, temente a Deus e que se desvia do mal é justamente Jó, aquele que perdeu tudo (testemunho do próprio Deus – Jó 1:8; 2:3).

4. Homem de bem e seu interesse no bem estar familiar: Pv 13:22 quer trabalhar não apenas uma herança monetária, bens terrenos e materiais, posses de terra, casas, etc. Há heranças mais significativas que as das posses materiais. Por exemplo: Nos primeiros capítulos de provérbios toda perspectiva de vida é moldada pela busca de sabedoria e não de riquezas. A maior herança ou legado que um homem de bem poderia deixar aos seus filhos era a sua educação, sua reputação e seu honroso estilo de vida moldados nas turbulências e o aprendizado na sua dependência de Deus. Há milhares de homens e mulheres de bem (desde os tempos bíblicos até hoje) que não deixaram herança material, mas deixaram um invejável legado de pessoas responsáveis, maduras, espirituais e dignas, acima de tudo. Trata-se então de um tipo de herança não contábil, que poderá se transformar, se assim Deus o permitir, também em algo palpável, como, por exemplo, riqueza, lucros, dividendos, etc. 

5. “A riqueza do pecador”: O que significa riqueza do pecador? Há inúmeras possibilidades de interpretação: 1ª. Riqueza adquirida por meios ilícitos: suborno, ambição por dinheiro, avareza (Cl 3:5), supervalorização daquilo que é material, ou mesmo a desvalorização da posse com propósito de gerar lucro; tudo isso é pecado (Sl 15:5). Não acredito que Deus desejaria que seus justos desfrutassem daquilo que não é legítimo como bênçãos. 2ª. No sentido de todos sermos pecadores no cerne, isto é, na essência, pode significar que, como pecadores, não desfrutemos das bênçãos advindas de nossa riqueza, mas que outros desfrutem delas. 3ª. Mais distante, num sentido figurado, a riqueza do pecador poderia ser sua estrutura de vida, trabalho e empreendimento ser fonte de bênção para um justo, por exemplo: um industrial descrente que decide investir num jovem crente. Um empresário ateu que decide dar uma oportunidade a um de seus empregados de confiança que é diácono na igreja.

Assim sendo, a interpretação deste verso, citado muito pelos adeptos da Teologia da Prosperidade ao afirmarem que o “homem de bem que deixa herança” é um crente que recebe prosperidade financeira porque simplesmente fez um pacto financeiro com Deus não tem parâmetros nas Escrituras. E quando afirmam que: “A herança ou riqueza de posse de pecadores, serão doados por Deus para os justos (crentes desses movimentos)” é um disparate. Os exemplos bíblicos de prosperidade da Bíblia são: no A.T.: Abraão, Ló (que perdeu tudo em Sodoma, justamente por ser ambicioso – Gn 13:10-11), Jacó (que usurpou de seu sogro – Gn 30:27-43), José (que não era financeira, mas sim de sabedoria e capacidade de trabalho – Gn 39:2-6; 20-23) e Salomão. E no N.T.: o jovem rico que Jesus aconselhou-o a trocar tudo pela vocação, inclusive doando aos pobres e não aos “justos” (Mc 10:17-22); Zaqueu que desejou acertar sua vida com Jesus, inclusive se fosse necessário fazer o devido ressarcimento a alguém (Lc 19:1-10), e Barnabé que acabou doando uma boa parte de seus bens para abençoar outros (At 4:36-37). Nenhum destes exemplos contidos nos textos bíblicos apresenta a idéia de que a pessoa tenha sido detentora de algo que outro (pecador) havia depositado em sua conta.

Há ainda outros dois temas entendidos erroneamente: o despojo e a restituição. O despojo de guerra era a maneira de um rei sustentar o “exército” que era formado por homens, possivelmente, que estavam sem serviço (penso que a grande maioria era desocupada, endividada), e os reinos não tinham como sustentar tais famílias e optavam por avançar suas fronteiras sobre a riqueza de outros reinos, colonizando-os. Por tratar-se de questão cultural dos reinos antigos, o Antigo Testamento registra inúmeros casos em que isso ocorreu (1º Sm 15), inclusive quando Israel e Judá foram subjugados por outros reinos. Tal despojo representava a parte que o guerreiro receberia por ter arriscado a sua vida nessa atividade (muitas vezes ilícita, diga-se de passagem).

Quanto ao tema da restituição, tema de muita ênfase nos casos como: Ló, que em Gn 14 é saqueado por quatro reis, Abrão vai para libertar seu sobrinho e consegue, além da libertação, a restituição de tudo o que ele havia perdido. Também dão ênfase naquilo que Deus devolveu a Jó (42:10 – que não é propriamente a restituição buscada dos ladrões que o roubaram) e a Davi (1º Sm 30:1-20). Não parece haver um fio condutor de procedimento padrão de Deus em que todos os casos são dignos de restituição. É só pegarmos o caso, como exemplo, da vinha de Nabote que o rei Acabe tomou porque ele se recusou a vendê-la (1º Rs 21:1-16). Nem a vinha e muito menos a vida de Nabote foram restituídas, que apesar da injustiça cometida, não recebeu o mesmo “final feliz”.

Quando chegamos ao Novo Testamento, a Palestina toda (cheia de pessoas devotadas, servindo a Deus no Templo e nas Sinagogas, inclusive João Batista, José, Maria, Jesus, Paulo, entre outros piedosos) está sob o domínio romano e não há restituição de nada. Encontramos Jesus dizendo que se alguém levar a sua capa, não peça a restituição, entregue também a túnica, e se levarem o que é teu, não deves entrar também em demanda (Lc 6:29-30). Encontramos Paulo exortando os crentes de Corinto que estavam levando seus irmãos ao juizado por demandas entre eles (1ª Co 6:7). Estes reinos, como o de Roma, por exemplo, simplesmente tomavam as terras dos judeus e doavam-nas em posse aos centuriões romanos como prêmio de suas conquistas. Isso nunca foi restituído. Jesus, em coro com os Escritores do N.T. argumentava a respeito de uma Pátria superior, onde nem traça, nem ferrugem e nem ladrões têm poder algum de roubar ou destruir (Mt 6:19-21).

Percebemos claramente a mudança de ênfase em relação àquilo que é usurpado de alguém e salientamos que Deus respeitou até mesmo tratos culturais, enfatizando a Lei de relacionamentos com Ele e com o próximo, inclusive no foco da obediência aos mandamentos e ordenanças, que visavam convivência pacífica e justa entre o seu povo.

Com isso, argumentar em favor de um texto isolado, criando uma espécie de regra para justificar ensinos sobre prosperidade não tem apoio nas Escrituras, nem isolando o Antigo Testamento para forçá-lo em defesa do que julgamos crer como ação de Deus.

SOLI DEO GLORIA


Rev. Antonio Teotonio da Silva

Teólogo Reformado e Pastor Ordenado da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Formado em Missiologia pela MNTB, Formado em Teologia pelo Seminário Teológico Revº Antônio de Godoy Sobrinho, Casado com a Profª Mônica há 19 anos, três filhos, atualmente pastoreia a IPI de Ouro Fino/MG desde jan/2006. 


Para lêr em portuês sobre outros temas:

1.- Jesus tem o controle de toda a Natureza. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/03/jesus-senhor-de-toda-natureza.html

2.- Jesus vem a nosso encontro. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/04/jesus-vem-nosso-encontro.html

3.- Pascoa, permaneçam em mim. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/04/pascoa-permanecam-em-mim_03.html

4.- As Palmas das Mãos de Deus. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/06/as-palmas-das-maos-de-deus.html

5.- A teologia de Libertação e o Protestantismo Brasileiro. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/06/teologia-da-libertacao-e-o.html

6.- Aquele com quem se pode contar. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/07/aquele-com-quem-se-pode-contar.html

7.- A Vitória Definitiva do Crente Sobre a Morte: A Vida. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/07/vitoria-definitiva-do-crente-sobre.html

8.- Ensina-os a contar os nossos dias.Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/08/ensina-nos-contar-os-nossos-dias.html

9.- Teologia e a Libertação na teologia latino-americana e suas contribuições na América Latina. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/08/teologia-e-libertacao-na-teologia.html

10.- Reflexão Pastoral: Provérbios 13,22. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/reflexao-pastoral-proverbios-1322.html

11.- A Volta de Cristo: Uma Reflexão Cristã abordando J. Moltmann. link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/o-que-penso-sobre-volta-de-cristo.html

12.- Deus é Luz: Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/deus-e-luz.html

13.- ISAÍAS : 26, 1- 6: Um Estudo Exegético. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/09/i-texto-1.html

14.- ECUMENISMO: Uma reflexão Teológica. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/ecumenismo-uma-reflexao-teologica.html

15.- PAUL TILLICH: Dinâmica da Fé. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/paul-tillich-dinamica-da-fe.html

16.- ISAÍAS : 63, 1- 6: Um Estudo Exegético. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/isaias-63-1-6-um-estudo-exegetico.html

17.- A CURA COMO AÇÃO SALVÍFICA DE DEUS : Teologia Bíblica do AT. e NT. O tema da Cura consta de tres escritos inéditos sobre a minha monografia no Seminário de 4º ano. Acesse o seguinte link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/cura-como-acao-salvifica-de-deus.html

18.- O Estudo do ponto de vista teológico sobre a cura como ação salvífica de Deus. Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/teologia-sistematica-cura-fisica-como.html

3 comentarios:

  1. Obrigado por publicar. Deus o abençoe. Rev. Teotonio. Um abraço.

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  2. Rev. Daza, me gustó mucho esta publicacion escrita en portugués. Yo si creo que la Teologia de la prosperidad ha afectado y mucho a las iglesias que la promulgan con todas sus fuerzas. El escritor de esta publicación si tiene gran sentido de observación. Me gustó. Felicitaciones por su trabajo. Dios le bendiga.

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  3. Prezado Pastor, as novas tendenças da teologia da Prosperidade tem trazido às igrejas e aos pastores problemas e dificuldades que deixam muito a desejar,o pastor Rev. Antonio, foi muito feliz no seu comentário ao dar-nos de presente uma reflexao exata desse texto em estudo. Parabens! Gostei desse artigo.

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