viernes, 28 de octubre de 2011

SALVAÇÃO EM DEUS E A CURA: Uma Proposta de trabalho



1.-  TEMA:

  

A CURA COMO AÇÃO SALVÍFICA DE DEUS

 



2.-  OBJETIVOS


Nesta monografia pretendemos abordar a questão da cura na vida do ser humano, como a função que une a presença do Reino de Deus com a ação salvadora de toda a criação, cuja proximidade a palavra de Deus anuncia e descobre. Essa salvação possui poder para “curar”, “purificar”, “desligar” e “dar a saúde” e, da mesma forma, o domínio de Deus expulsa da criação os poderes de destruição, os demônios e ídolos, e sara as criaturas por eles ma­chucadas. Todas as dimensões da vida estão envolvidas nela. A salvação é então o resumo de todas as curas, portanto, salvação significa cura. Nossa análise partirá da pesquisa bíblica, ou seja, constatar o tema da função de cura no Antigo e no Novo Testamento.


Vou apresentar este trabalho com os seguintes objetivos específicos:


               a) Refletir o que é a cura, que é descrito como a ação de Deus para restabelecer a saúde do ser humano dentro de sua perspectiva integral e total. À luz da descrição do termo cura, devemos analisar o termo doença,  que é concebida sobretudo como um estado de fraqueza, sofrimento e debilidade humana que perturba o equilíbrio da vida e, por conseguinte, seu resultado final é a morte. Já que doença é uma desintegração da centralidade sob todas as dimensões da vida, o impulso para a saúde, para a cura, deve também ocorrer em todas as dimensões. Saúde e doença são estados da pessoa como um todo e, em decorrência disso,a cura se dirige à pessoa toda.

               b) Discutir dentro da perspectiva cristã que, a cura de doenças e perdão dos pecados são necessários  e  não  podem  ser  reduzidos  uma ao outro. Enfatizar que Deus é o Senhor da vida, e que pode salvar o homem não só do pecado mas das doenças do seu corpo frágil e limitado. Portanto, em todo processo de cura está presente também o perdão de pecados.

               c) Explicar que, em tudo ato de curar existe uma diferença que não se pode esquecer, apesar de toda a ênfase da totalidade da salvação que tem seu origem no poder de Deus: a cura supera a enfermidade e cria a saúde. No entanto, ela não vence o poder da morte. A salvação em sua consumação, porém, é a destruição do poder da morte e o ressuscitamento do homem para a vida eterna. Também os mortos curados e ressuscitados por Jesús, como Lázaro, continuam sujeitos ao poder da morte e morreram posteriormente.

             d) Apresentar que a inter-relação entre cura de enfermos e expulsão de demônios não são fenômenos historicamente condicionados do mundo antigo nem ainda fenômenos concomitantes da mensagem de Jesus, mas elas próprias são a mensagem. Pois somente onde aparecem Jesus e sua mensagem, os doentes e possessos saem das trevas para onde haviam sido banidos, e se juntam ao redor dele. Quando vem o médico, aparecem os doentes. Onde a salvação se aproxima, os poderes antidivinos são identificados e exterminados. Sendo portanto, que as expulsões de demônios e cura de enfermos andam de maos dadas, porque o povo traz seus enfermos e possessos a Jesus e porque ele cura a ambos. Ele é idêntico com o domínio de Deus: “Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Lc 11,20).

                e) Mostrar que a cura é coisa do nosso dia-a-dia, não tendo nada de abstrato. Por isso as curas de Jesus não são milagres sobrenaturais num mundo natural, mas a única coisa “natural” num mundo desnatural, demonizado e machucado.

                f) Mostar  que a “cura”, não  é  a  “salvação da alma”, embora também a alma das pessoas enfermas deva ser sarada. Excluendo aqui todo dualismo grego entre corpo e alma (dicotomia do homem) e sim, sob a perspectiva da unidade na descrição da alma do ponto de vista bíblico.

                g) Mostrar um tópico sobre a fé que cura. Onde há fé, o poder que emana de Jesus opera milagres. Onde falta a fé, como em sua cidade na­tal Nazaré, nada pode fazer. Não é aquela cura pela fé que nós chamamos de “mágica” e muito usado pelos       curandeiros, porém aquela fé determinada pelo Espírito que busca levar nosso próprio centro pessoal, inclusive nossa solici­tude para com nossa própria saúde ou de outrem, diante de Deus, e que ela está pronta a aceitar a aceitação divina de oração, mesmo que o conteúdo dessa oração seja atendido ou não.

               h) Mostrar que o homem redimido e curado de novo é a pessoa humana e cristã que em virtude da graça Divina torna-se livre para amar de verdade, essa pessoa, é aquele que na fé e na esperança, no gozo e a felicidade, pode resistir ao mundo de pe­cado e de morte em que vive, é aquele que pode esperar a manifestação do Reino de Deus. Portanto, a função receptiva do homem nessa experiência é fé; a função atualizadora é o amor. Saúde no sentido último da palavra, sa­úde enquanto idêntica à salvação, é vida em fé e amor.

                i) Cumprir os requisitos parciais para a obtenção do título de Bacharel em Teologia no Seminário Teológico “Rev.º Antonio de Godoy Sobri­nho” da IPIB.

     
                                                                                                                                                            
3.- JUSTIFICATIVAS



        Neste trabalho abordarei  o tema da cura como ação salvadora de Deus, com as seguintes justificativas:

a) O assunto a ser abordado é de grande interesse para o estudante tanto nas suas atividades acadêmicas como nas suas funções pastorais após de sua ordenação. A literatura teológica existente percorre caminhos que nem sempre proporcionam o entendimento imediato ou a solução para as dificuldades que surgem durante o desenvolvimento da pesquisa com fins aplicativos para um trabalho pastoral. Neste sentido, este trabalho contribui para o desenvolvimento da pesquisa, com a apresentação dos conceitos básicos e conteúdos objetivos.

b) Dificilmente haverá alguma palavra na linguagem religiosa, que tenha sido mais incompreendida, distorcida e mal definida do que a palavra “cura”. Ela é um desses termos que primeiro precisam ser sarados, antes de poderem curar pessoas. Hoje a palavra “cura” causa mais desorientação e confunde as pessoas, levando a extremos como ceticismo ou fanatismo, resistência pela razão ou sujeição emocional. Assim não nos resta por enquanto nenhuma outra saída senão tentar reinterpretar esta palavra e excluir suas conotações distorcidas e enganadoras, as quais se lhe associaram através dos séculos.

c) As Igrejas Cristãs estão perdendo sua própria identidade nestes tempos de crise, quando a confissão e a prática de fé parecem fugir do padrão estabelecido pela historicidade da mensagem bíblica, a respeito desta pesquisa sobre a cura como um elemento na obra de salvação relatado nas Sagradas Escrituras.  A falta de valorização destas duas dimensões conduz inevitavelmente a uma distorção da missão da  igreja. Por isso, ela deve optar por um sério confronto ou uma perspectiva que permita a busca do verdadeiro significado da mensagem do evangelho e do sentido dos problemas que surgem na vida de cada dia  como entidade eclesial. Não há outro caminho de correção senão o da catequese ou discipulado.

d) Muitos caem no erro de pensar ao respeito de doutrinas que ensinam que, a saúde funciona como evidência da expiação. Conseqüentemente, quem não experimenta a cura também não recebeu a expiação dos pecados. Embora essa doutrina tenha sido reconsiderada por teólogos pentecostais e até por algumas figuras importantes do movimento de cura, sua influência ainda permanece vigente, expressando-se especialmente nas correntes de Igrejas tradicionais e pentecostais que enfatizam a cura como se fosse o primeiro artigo de fé. As campanhas de massa, chamadas de “cura divina” (ao invés de evangelização), são expressões fiéis desse ponto de vista.

e) Existe no nosso meio uma teologia de tipo fundamentalista que, dentro do procedimento da “cura divina” acompanha logicamente as interpretações sacrais sobre a origem das doenças. O exorcismo do demônio é praticado por vários líderes (principalmente) pentecostais dotados deste especial poder de expulsar os “anjus maus” que afligem os homens. O chamado “Dom da cura”, entretanto, mostra-se mais amplo, sendo liturgicamente inspirado em passagens do Novo Testamento. Eles enfocam que a vida humana é o espaço de uma luta diária e contínua entre Deus e o Diabo. Daí que, devemos tirar tudo preconceito religioso e místico onde os conteúdos tradicionais da demonologia, angelologia e antropologia são combinados no quadro teórico da “batalha espiritual”.

                        f) Muitos caem no erro de acreditar na concepção grega, de que  a enfermidade do corpo provem de fato de que o corpo como tal é mau e está apontando para destruição, enquanto que a alma é imortal. Esta dicotomia de corpo e alma são radicalmente opostos entre si e pertencem a dois mundos distintos. Esta crença grega se nos apresenta como um dos elementos da pregação de muitos pastores sobre a eternidade e sobre a salvação de almas, rejeitando a importância do corpo e da integralidade do homem, esquecendo que a Bíblia fala sobre a concepção da morte e a ressurreição. Por conseguinte, olham com desprezo o significado da função de cura do ser humano, separando, assim, cada vez mais a unidade original de corpo e alma.

  
4.-  METODOLOGIA



        Para falarmos sobre a Doutrina da Cura como ação salvífica de Deus usaremos uma bibliografia que abranja tão importante assunto.  Para esse projeto o estudante está fazendo uma pesquisa bibliográfica do assunto em livros teológicos, comentários bíblicos, dicionários teológicos, filosóficos e antropológicos, enciclopédias e anotações de aulas em classe. Está levando um fichário de conteúdo de leituras feitas e também a elaboração das fichas bibliográficas com suas respectivas classificações que servirão durante todo o processo de elaboração desse trabalho monográfico.

  
5.- SUMARIO

  
5.1 -  Teologia Bíblica


                         Nesta primeira parte do trabalho monográfico, trataremos sobre a cura tendo como base o Antigo e Novo Testamento e afirmaremos que unicamente Javé é o Senhor da doença e da cura. Esta é a certeza bíblica inabalável [1]. Deus é designado como salvador; no hebraico, esta palavra Salvador é um participio, e não um substantivo, o que parece indicar que, no Antigo Testamento, a palavra não é tanto um título e, sim, uma descrição das atividades de Deus em prol de seu povo e da humanidade em geral. Neste sentido, evidencia-se que, dentro destas atividades salvadoras a função de cura é um elemento na obra da salvação.

                        Mostrarei que no Antigo Testamento o homem é trabalhado como um todo e quando doente também apresenta-se doente num todo. Deus é Jeová Rafá que se apresenta para a recuperação do ser humano. Diante de nós temos clara uma oposição saúde e doença ou ainda cura, (salvação) e doença. A salvação pela cura corresponde à ameaça pela doença [2].  Portanto, a doença é uma calamidade mandada por Javé, como castigo e somente Ele pode curá-la (Ex 12.12; 1Sm5.6; Sl 39.11). A antiga sentença, “Eu, Javé, sou o teu médico”, tinha originariamente um conteúdo da preocupação de Deus com a sua criatura, que estando doente e em sofrimento, deseja conduzi-la para o futuro, ao conhecimento de si mesma e do seu Criador.  Nessa perspectiva, o aluno trabalhará textos chaves nos livros de Êxodo, 1ª e 2ª de Reis, Salmos e destacarei também a presença do profeta Isaías com seus oráculos de promessas escatológicas, em que no fim dos tempos: já não haverá enfermos, sofrimentos nem lágrimas. Quando o Justo Sofredor tiver tomado sobre si as nossas enfermidades, seremos curados graças às suas pisaduras (Is. 53,4s).

                     No Novo Testamento, falarei sobre a cura na perspectiva dos evangelhos que apresentam a história de Jesus à luz de sua missão messiânica. Aí, Jesus Cristo é anunciado como o salvador. Isto vale para todos os livros do Novo Testamento, enfatizando que foi o Deus salvador que agiu em Jesus como foi o Deus salvador que agiu em favor de Israel.  Em Jesus se expressa o sentido de seu agir e sua ação acompanhada de sua proclamação do Reino de Deus. Comentarei o tema baseado no evangelho de João 9,2 s  e Lc 13,16 onde mostram que ao longo de todo o seu ministério, Jesus encontra enfermos em seu caminho. Sem interpretar a doença numa perspectiva de retribuição demasiado estreita, vê nela um  mal de que sofrem os homens, uma conseqüência do pecado, um sinal do poder de Satanás sobre os homens. Por isso, a expulsão de demônios e cura dos enfermos caracterizam a vida de Jesus desde o início.

Destacarei também que as curas miraculosas não ficou restrito à vida terrestre de Jesus. Este havia dado aos seus Apóstolos, desde a primeira missão dos mesmos, participação no seu poder de curar as doenças. Daí que comentarei este tema baseado no livro de Atos onde assinalam repetidas vezes as curas pelos Apóstolos. Também abordarei segundo o pensamento do apóstolo Paulo que menciona a cura entre os carismas em 1Cor 12:9.28.30: este sinal permanente continua a acreditar a Igreja de Jesus, mostrando que nela age o Espírito Santo. A parte de Novo Testamento será delimitada dessa maneira.

Juntamente com as informações bibliográficas, colocarei meu posicionamento sobre os assuntos discutidos como contribuição para o trabalho monográfico.
  

5.2      Teologia Sistemática


                        A seguir, passaremos a abordar a cura na perspectiva da teologia sistemática, inicialmente falarei sobre o pensamento de Agostinho na sua obra “A cidade de Deus” onde desenvolve um tema básico sobre a preocupação pelos doentes, as curas dos doentes e as expulsões dos demônios. Todas estas atividades segundo Agostinho, estão envolvidas numa rica terminologia que descreve Cristo como médico, os sacramentos como meios da cura, a fé cristã como religião da cura, tendo seu início na práxis do Reino de Deus em Jesus e, passando pelas comunidades do Novo Testamento, continua até ao tempo da Igreja antiga.

                    Em seguida passarei para o momento da atuação dos reformadores. Destacando esse tema segundo seus representantes, principalmente na ótica de João Calvino. Afinal somos seus herdeiros, e ele merece destaque num trabalho de monografia dessa importância.

                     Encerro essa segunda parte com o pensamento de dois teólogos importantes, Paul Tillick e Jürgen Moltman. Exporei suas opiniões sobre a cura como ação salvífica de Deus, porque eles são atuais e seu pensamento contribuirão positivamente da perspectiva dum trabalho pastoral. Opinarei em todas essa partes, pois creio que isso é importante no trabalho monográfico.


5.3-     TEOLOGIA LATINO AMERICANA

  
Por fim, restará uma análise sobre a realidade latino americana, baseado em alguns autores, principalmente em  Jose Míguez Bonino, Leonardo Boff e Jon Sobrino. Mostrarei os seus posicionamento com relação a cura e libertação no contexto de vários comentários das epístolas Paulinas e dos evangelhos Sinóticos, fazendo uma ponte com o que já fora dito nesta pesquisa da Teologia Bíblica colocando também o meu ponto de vista.

O pensamento destes teólogos da América Latina chamou-me a atenção porque analisam a realidade das condições sociais, políticas e religiosas  dos países latino-americanos. O povo vive seu sofrimento, embora a bandeira da esperança, asteada, proclama que Deus está ao lado dos que sofrem e não os abandonará jamais. A fé e a esperança em Cristo são apresentadas nesse contexto de libertação e cura, porém, como um remédio ao sofrimento, tendo o ressurreto, como paradigma à Vida, hoje e eternamente na América Latina.

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Observações:

Para lêr a primeira parte do desenvolvimento deste trabalho clique neste Link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/cura-como-acao-salvifica-de-deus.html
Capítulo I: Teologia Bíblica 


SOLI DEO GLORIA
REV. RUBEN DARIO DAZA

 

 

BIBLIOGRAFIA

  

ALTMANN, Walter, Lutero e Libertação. São Paulo. Sinodal. Ática, 1994.

BERKHOF, Hendrikus, In: Grandes Temas da Tradição Reformada. São Paulo Pendão Real, 1999, p.137-148.

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ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo. Vida Nova,1992.

GERSTENBERGER, Erhard S. e SCHRAGE, Wolfgang. Por que Sofrer?. 2ª edição, São Leopoldo. Sinodal, 1987.

IDÍGORAS, J.L. “Cura” In: Vocabulário Teológico para a América Latina, São Paulo, Paulinas, 1983.

JONES, Stanley. Cristo e o Sofrimento Humano. 3ª Edição, São Bernardo do Campo São Paulo. Imprensa Metodista, s/n.

CALVINO, João. Comentário à Sagrada Escritura. Exposição de 1 Coríntios. Ed. Paracletos. São Paulo. 1996.

LOEWENICH, Walther von. A Teologia da Cruz de Lutero. São Leopoldo, Sinodal, 1988.

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MOLTMANN, Jürgen. El Dios Crucificado, 2ª edição SÍGUEME, 1977, Apartado 332, Salamanca
__________________. O Caminho de Jesus Cristo. Petrópolis, Vozes, 1993

___________________. Deus Na Criação. Petrópolis. Vozes, 1993

ORR, W. W. Cura Deus no dia de hoje? 2ª Edição. São Paulo. Imprensa Batista  Regular, 1963.

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TILLICK, Paul. Teologia Sistemática. 2ª edição. São Paulo: Paulinas; (São Leopoldo, RS): Sinodal, 1987.

SOBRINO, Jon. Jesus, O Libertador. São Paulo. Vozes. Tomo III, 1994.

WESTERMANN, Claus. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo. Paulinas, 1987.

WOLFF, Walter Hans. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo. Loyola, 1975.




[1] WOLFF, Walter Hans. Antropologia do Antigo Testamento p.198.
[2] WOLFF, Walter Hans. Antropologia do Antigo Testamento p.193.

A CURA COMO AÇÃO SALVÍFICA DE DEUS : Teologia Bíblica do AT. e NT.



1 -  Teologia Bíblica


1.1. Introdução:


            Nesta primeira parte do trabalho monográfico, trataremos sobre a cura tendo como base o Antigo e Novo Testamento e afirmaremos que a cura brota do propósito maior de Deus para nossa vida: a salvação. A salvação desejada por Deus é para o homem todo, e não somente para uma dimensão do nosso ser.

Salvação, de acordo com os dicionários[1], significa:  “Segurança. A idéia de “salvação” encontrou, para se expressar no vocabulário do saltério, o verbo  hebraico yesa / yesuah,  que significa mais exatamente salvar, e usado na voz passiva (ser salvo) e causativa (fazer salvar, mandar salvar). Primordialmente, esta raiz parece conter uma idéia de espaço, de amplitude, de largura: estar à larga, à vontade. Seu contrário é o termo “tsarar”, e significa: estar confinado, estar em dificuldade, tristeza ou angústia. Do sentido primitivo passa-se logo a uma significação mais ampla: libertar ou salvar dum mal qualquer, como enfermidade, perigo, guerra, morte, escravidão, etc.; a palavra, então, toma um sentido matizado conforme a circunstância em causa: sarar, viver feliz, vencer, ver-se libertado, etc. Neste sentido, ser salvo é ser tirado de um perigo no qual se corria o risco de perecer. Conforme a natureza do perigo, o ato de salvar tem afinidade com a proteção, a libertação, o resgate, a cura; e a salvação, com saúde, a vitória, a vida, a paz...” Portanto, a salvação também diz respeito aos nossos problemas do dia-a-dia, incluindo as enfermidades físicas.

Juntando todos esses significados, percebemos que o Antigo Testamento conhece um Deus-salvador. Para o povo judeu a salvação é objeto de experiência pessoal. Não apenas uma proclamação verbal; é encontro com o Salvador; o beneficiado e o seu salvador começam a formar uma unidade espiritual, Israel traduz de bom grado esta experiência, este conhecimento, em sua oração (Salmos) [2]. Os indivíduos fazem o mesmo; desfiam em suas orações, primeiro suplicantes, depois agradecidos, todas as desgraças que podem afligir os crentes; a doença, a morte, mas também a injustiça, e até os obstáculos que põem a fé em perigo ( cf.  Sl 6,5; 18; 116, 4-6), são todos sofrimentos dos quais Deus cura com sua ação salvífica.

  

1.2. ABORDAGEM SOBRE A SALVAÇAO-CURA NO ANTIGO TESTAMENTO


                  No Antigo Testamento, a Teologia era a de que Deus envia o sofrimento, a dor e depois a cura; e pode-se afirmar que unicamente Javé é o Senhor da doença e da cura. Esta é a certeza bíblica inabalável [3]. O sofrimento vem de Javé e só ele pode aliviá-lo e curá-lo (Jó 5:18) [4]. Portanto, a doença é uma calamidade mandada por Javé como castigo e somente Ele pode curá-la (Ex 12:12; 1Sm 5:6; Sl 39:11). Daí que, Deus é designado como salvador; no hebraico, esta palavra Salvador é um particípio, e não um substantivo, o que parece indicar que, no Antigo Testamento, a palavra não é tanto um título e, sim, uma descrição das atividades de Deus em prol de seu povo e da humanidade em geral [5]. O autor da salvação pode ser, em certos casos, um homem, mas, na maior parte das vezes, é Deus. Quando se trata de uma doença, a salvação é a cura; quando se trata de uma guerra, é a vitória [6]. Portanto, evidencia-se que, dentro destas atividades salvadoras a função de cura é parte integrante da salvação.

                         No Antigo Testamento, Javé é concebido exclusivamente como Senhor absoluto e Criador [7] (Gn1.1-2.4a). Em sua palavra, transcendente em poder, numa ação livre superior e com autoridade plena sobre a criação, cria também o ser humano; o qual depende de Deus. Precisa de espaço vital, sustento, ocupação, comunidade, comunicação, descanso, e, então Deus providenciou tudo, até o dia do descanso. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gn 1.27).

Quando Javé formou o homem “do pó”, soprou nele o fôlego da vida, fazendo, assim, dele um “ser vivente” (Gn 2:7) [8] . A palavra usada pelo Javista (J ), “nefesh”, originalmente significava “garganta” [9], depois a “respiração” que passa através da garganta e a “vida que pode ser reconhecida através da presença da respiração [10]. Mostra-nos claramente que, o termo refere-se ao homem como um todo. Javé não criou o corpo e lhe acrescentou uma “alma”; o homem deve ser compreendido como um todo vivo, não como uma dicotomia ou tricotomia.

 Por um lado, o homem é “carne”  (básar)[11] ; contudo, Javé é espírito (Gn 6:3 ; Is 31:3). Essa antítese não se refere ao contraste entre aquilo que é material e aquilo que é espiritual; ela enfatiza que o homem é fraco [12], mas Deus é forte (Jr 17:5 ; Is 31: 1-3), que o homem é transitório, mas Deus vive eternamente (Gn 6:3 ; Is 40:6-8). O seu viver na terra não é fácil. É limitado pela sua finitude: sujeito às doenças, degeneração das células e morte, porém Deus é a sua providência. (Jó 14.19; Sl.104.14b-15). O homem, porque criatura, esquece-se e desobedece, possui a faculdade de pecar, será sempre falível. Porque tu és pó e ao pó tornarás (Gn.3.19). Comete crime, se perde, é seduzido, e, atrai para si doenças.

Transgredir é ação congênita do homem! Não aceitou ser humano, querendo antes ser “ como deus”, se rebelou atraindo para si culpa, sofrimento, doença, morte. A ambição humana é a fonte das doenças, mas em Deus está a cura e salvação. Assim já no AT, básar não só significa a falta de força da criatura mortal, mas também a sua fraqueza quanto a fidelidade e obediência em face da vontade de Deus[13].

Neste sentido, a raiz da experiência como diz Westermann, acha-se em a natureza do ser humano. O homem foi criado para a vida embora para uma vida limitada (Gn 2 e 3). Enquanto vive, o homem se vê assediado de riscos, pode sofrer ataques e ferimentos. Quem sobrevive experimentou a salvação, quer povo, quer indivíduo [14].

 A Bíblia é muito precisa quando usa a palavra “curar”. O distúrbio físico aqui focalizado é considerado uma enfermidade, e o restabelecimento é designado pelo termo “sarou”, usando o vocábulo hebraico rafa= Deus cura [15].  O “rafa” também é exclusivamente o entendido em curar como médico de feridos. A raiz lingüística raf', empregada agora as mais das vezes  no sentido de “curar”, originariamente significa remendar, costurar uma coisa a outra, unir. Em geral, o entendido em curar deve restituir as forças ( Cf. Ez 30:21; 34:4) ao enfraquecido pela doença [16].

                          À luz da descrição do termo cura, devemos analisar o termo doença, que é concebida sobretudo como um estado de fraqueza, sofrimento e debilidade humana que perturba o equilíbrio da vida, que prejudica a capacidade do homem de se manter organicamente bem e, por conseguinte, seu resultado final é a morte. Já que doença é uma desintegração da centralidade sob todas as dimensões da vida, o impulso para a saúde, para a cura, deve também ocorrer em todas as dimensões. Saúde e doença são estados da pessoa como um todo e, em decorrência disso, a cura se dirige à pessoa toda. 

                          Portanto, Deus é Jeová Rafá que se apresenta para a recuperação do ser humano. Diante de nós temos clara uma oposição saúde e doença ou ainda cura, (salvação) e doença. A salvação pela cura corresponde à ameaça pela doença [17].  Percebe-se então, que Deus sempre se preocupou com a sua criatura, que estando doente e em sofrimento, deseja conduzi-la para o futuro, ao conhecimento de si mesma e do seu Criador.

                         Um dos momentos privilegiados em que sentimos uma forte mensagem sobre a salvação-cura encontra-se em Êxodo 12. Nesse capítulo, Deus começa a preparar seu povo para a libertação da escravidão do faraó do Egito. A nós nos interessa saber que a manifestação de Deus estará ligada a uma refeição que a partir de então, passará a ser celebrada todos os anos pelos judeus, a saber: a refeição pascal [18].

                         Na refeição pascal no Egito, cada família deveria tomar um cordeiro para comer, e assinalar a casa com o sangue do animal. A ordem de Deus fora: “O sangue nas casas será um sinal de que vocês estão dentro delas: ao ver o sangue, eu passarei adiante. E o flagelo destruidor não atingirá vocês, quando Eu ferir o Egito” (Ex 12:13).

                          Os resultados da obediência não se fizeram esperar. Quando o Senhor passou pelo Egito, somente as casas dos israelitas foram poupadas. Também ocorreu outro fato estupendo: “E Deus tirou os hebreus carregados de ouro e prata; não houve, nas tribos, nenhum enfermo” (Sl 104:37). Aquele cordeiro serviu para dar proteção e saúde.

                          Uma imagem central para descrever o trabalho de Deus na criação é a da cura. Em Êxodo 15:25b-26, o poder de Deus torna-se uma promessa em um acordo mútuo, e daí que, a saúde foi a realização da Palavra dada por Deus:


“Foi aí que Moisés estabeleceu um estatuto e um direito para o povo, colocando-o à prova e dizendo:“Se você obedecer a Javé seu Deus, praticando o que ele aprova, ouvindo seus mandamentos e observando todas as suas leis, Eu não mandarei sobre você nenhuma das enfermidades que mandei sobre os egípcios. Pois eu sou Javé, aquele que cura você” [19].


                       Nesta passagem, percebe-se que a palavra e a ação de Deus andam sempre juntas. Isso implica que Ele age julgando e libertando, destruindo e mantendo. Neste sentido, a experiência do Deus Salvador e libertador passa através da descoberta do Deus que Cura, aliado da vida, fonte de saúde. Na confissão de fé: “Eu sou o Senhor, aquele que te cura (Ex 15:26)”, tinha originariamente um conteúdo bem real, definia um programa...cujas alterações do fundamento essencial da existência humana levavam também a um estatus confessionais. Somente Deus cura (II Rs 5:7) e é impiedade duvidar do socorro de Javé, apelando para a consulta médica (II Cr 16:12).  [20]

O êxodo conta desastres impostos àqueles que se opõem dos propósitos e os planos de Deus. Por outro lado, Israel desfruta de uma oferta de amparo para o povo ordenado pelo desejo divino; que é retratada através da imagem de Javé como “aquele que cura”, em contraste com as “doenças” que caíram sobre aqueles que se opuseram a Ele. O lemos no relato de curas como a da irmã de Moisés, Miriam, alcançada através da oração de Moisés (Num 12:9-16). “Moisés clamou então ao Senhor: “Oh Deus cura-a! Miriam foi curada como o foram tantas pessoas no Antigo Testamento.

                           O livro dos Números conta a cura dos mordidos por serpentes venenosas: “Quando uma serpente mordia alguém, se este olhava para a serpente de bronze, continuava vivo” (Num 21:9). Do período patriarcal são lembradas as curas de Abimelec, sua mulher e suas servas (Gn 20:17-18). Existem muitas outras passagens no Antigo Testamento em que vemos pessoas sendo curadas de suas enfermidades. O principal é entender que a cura é vista como uma das dimensões do relacionamento  de Deus com seu povo.

                          Nas narrativas veterotestamentárias, a cura como ação salvífica de Deus é também apresentada como algo para o futuro. Em Jeremias Deus promete restaurar seu povo com um tempo de cura: “Vou pensar-lhes as feridas e curá-las, e lhes proporcionar abundância de felicidade e segurança” (Jr 33:6). Por meio de Ezequiel, diz: “A ovelha perdida, eu a procurarei; a desgarrada, eu a reconduzirei; a ferida, eu a curarei; a doente eu a restabelecerei” (Ez 34:16).

                          Também a presença do profeta Isaías com seus oráculos de promessas escatológicas, em que no fim dos tempos: já não haverá enfermos, sofrimentos nem lágrimas. Quando o Justo Sofredor tiver tomado sobre si as nossas enfermidades, seremos curados graças às suas pisaduras (Is. 53,4s). Sobre a obra do Mesias, é dito: “…o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas” (Is 53:5b). O Servo recebeu a missão de trazer ao povo paz e cura através de sua presença.

Portanto, a criação, a salvação e a reintegração pertencem à mesma atividade contínua do Deus criador na história. Conseqüentemente, a cura que traz saúde e bem-estar é projetado pelo Criador para prevalecer no mundo criado. Deus toma a iniciativa de salvar o povo do sofrimento. Percebe-se, pois, que o anúncio de salvação, no Antigo Testamento, já integra esta salvação. A mensagem cria estado de tensão e de expectativa que, após o ato salvador, forma com este uma unidade. Estas unidades variam de acordo com os tipos de libertação e de intervenção divinas. A variedade das formas de anúncios caracteriza o Antigo Testamento e a sua história entre Deus e o homem.


1.3 A cura na ação Salvífica de Deus em Jesus Cristo no Novo Testamento. 


                      O Tema central do Novo Testamento é a salvação operada pelo Cristo, o sóter  (gr.) e a soteria (gr.) (salvador e salvação). Aparentemente diferentes, os acontecimentos redentores no Êxodo e no Novo Testamento têm em comum o Deus que efetuou a salvação . Assim sendo, Jesus Cristo é anunciado como salvador. Jesus é o Salvador: esta afirmação sobre Jesus de Nazaré abrange todo o Novo Testamento; foi o Deus salvador que agiu em Jesus como foi o Deus salvador que agiu em favor de Israel [21].


A narração de ação salvífica de Deus em Jesus Cristo, no Novo Testamento pressupõe a experiência de Deus como Salvador. Não é sem motivo que os quatro evangelhos não falam somente de paixão, da morte e da ressurreição de Jesus, mas também do Jesus que nasce e que participa de nossa vida, crescendo e amadurecendo, que favorece esta nossa vida abençoando, curando, protegendo, ensinando. Toda uma série de narrações, as curas, a bênção das crianças, as refeições em comum, fazem parte da ação abençoadora de Deus” [22].  


Portanto, Jesus, o “salvador” (Mt 1.21; Lc 2.11; Jo 4.42), traz a salvação anunciada.  Médico que veio para curar as doenças (Marcos 2.17), ele “salva” o que estava perdido (Lc 19.10). A salvação que ele traz é saúde para os homens (Mt 9.21-22: ser salvo – ser curado), como significam tantos milagres.

 As narrativas de milagres no Novo Testamento, encontram traços, no que se refere aos exorcismos e nas curas de enfermos, como também para os milagres que envolvem a natureza feitos por Jesus, (p. ex., quando acalma uma tempestade, Mc 4:35-41 par) podem ser encontrados paralelos semelhantes em narrações judaicas e helenistas [23]. Ao se relatar que Jesus triunfa sobre maus espíritos, doenças e poderes da natureza, pretendia-se enfatizar que com ele teve início a salvação. Na realidade, o que Jesus procura é  uma saúde total, que quer arrancar radicalmente do mal: ele perdoa os pecados antes de curar e, uma vez curado, o doente deverá evitar de recair no pecado.

                          Para Jesus não existe nenhuma separação entre alma e corpo e, em consonância, tampouco entre salvação eterna e felicidade terrena do homem. O perdão de pecados e a cura da doença estão juntos. Em suas andanças sempre ocorrem as duas coisas: ele prega aos homens o evangelho do Reino de Deus e paralelamente cura suas enfermidades [24]. Assim ele aparece ao mesmo tempo itinerante e taumaturgo. Sua palavra é uma investida real contra todo mal que ameaça destruir o homem, contra seu pecado e contra sua doença. Juntando esses dois aspectos da sua atuação, por ensino e cura, posto que a palavra da graça que procede da sua boca (Lc 4:22) inclui uma série de atividades, desde a instrução até a proclamação  e a cura física, e aí que Jesus se revela o Salvador. [25]

                            A doença naquela época tinha em grande parte o sentido de possessão por espíritos maus [26] ou punição de Deus por uma culpa cometida ou castigo divino, ao qual  a pessoa devia se submeter. Assim é que os discípulos, ao encontrarem um cego de nascença, perguntam a Jesus: “Quem foi que pecou, ele ou os pais?” Jesus  lhes responde: “Ninguém pecou, nem ele nem os pais. Foi para que nele se manifestem as obras de Deus” e ele cura o cego. Assim sendo, através do Novo Testamento Jesus redefiniu essa noção. Jesus dizia ao povo que o sofrimento não vem de Deus; a cura, sim. (Cf. João 9:2 s. e 11:4 ). Daí que pode-se afirmar que, o homem foi feito para manter o máximo equilíbrio espiritual, psicológico e físico. Portanto, Jesus considerava como mal tudo o que impedisse um homem de manter-se íntegro e, imponde-lhe as mãos, o curava.

                            Jesus não faz reflexões teóricas sobre como o mundo corre e sofre. Ele sempre encarou sofrimentos e doenças como males e, portanto, quando alguém se aproximava dele, curava-o porque desejava afastá-lo do mal. Não julga a doença como salutar ao homem e tampouco exige sua submissão ao sofrimento, antes investe contra a doença e o sofrimento. Cura cegos, paralíticos, leprosos, surdos-mudos e, sobretudo, invariavelmente os alienados (Cf. Lc 7:22 par. Mt 11:5).

                              Ninguém negará que Jesus teve poderes que o capacitavam a curar e, seus contemporâneos não tinham a mínima dúvida de que tais poderes eram miraculosos [27] , porque a comunidade tinha experimentado milagres [28]. Essas curas são sinais de sua autoridade, provas de que o Cristo é o kurios do espírito [29] e da força divina [30] (Atos 10:38). Nelas realiza-se sua experiência de Deus de modo visível e para ele próprio surpreendente de que Deus está próximo com o seu povo, com o Israel escatológico; e assim as interpreta como sinais do Reino de Deus que está para chegar. Por isso a peculiaridade característica do anúncio de Jesus está no fato de os acontecimentos finais não serem mais mero futuro. O Reino de Deus já se inicia. Que o Reino de Deus já está presente, mostra-se, sobretudo, nos milagres da cura de Jesus. Contudo, a presença do Reino de Deus, para Jesus, manifesta-se claramente na libertação dos homens da doença e da possessão.[31]

                     No evangelho de Lucas, como de resto os dois outros sinóticos, relata numerosos milagres de cura de doentes. O próprio Jesus, segundo Lucas, dá um sentido religioso a estes gestos de ajuda ou libertação dos homens [32]. Daí que, a palavra cura, é freqüentemente designada pelo verbo “salvar”: “Tua fé te salvou, declara Jesus. O termo é equívoco: ele designa a cura, mas pode-se pressentir que ele vai mais longe (Cf. Lc 7:50 e 17:19).  Lucas faz do milagre um sinal da verdadeira salvação. Portanto, a cura física não passa de um sinal, uma promessa da verdadeira salvação, que é a vitória sobre o mal [33].

 Neste sentido, argumenta FABRIS & MAGGIONI:

A tradição evangélica da qual depende Lucas (evangelho de Marcos de fonte “Quelle - Q” ) selecionou alguns milagres de cura ou libertação do mal físico e os releu sob o aspecto religioso. Assim, além da cura física, a interpretação evangélica entreviu a salvação simplesmente, introduzindo nela um elemento tipicamente religioso: a fé (cf. Lc 7:1-10; 8:50). Esta é uma conotação constante da salvação bíblica; o Senhor salva quem confia nele, quem conta com a sua fidelidade e poder ( cf. Is 7:9; 28:16; 30:15; e nos Salmos). Também, para a cura-salvação concedida por Jesus, a fé é a condição  única e essencial: “A tua fé te salvou”, é o anúncio que Jesus dá à Mulher curada da hemorragia crônica (Lc 8:48; Cf. Lc 17:19: ao samaritano curado da lepra; 18:42: ao cego de Jericó).[34]

   
Pode-se confirmar de que, todas as narrativas de curas são, antes de tudo, histórias de fé. Elas anunciam o que pode a fé, despertada por Jesus, na salvação de Deus diante de uma desgraça concreta. Somente aquele que crê na palavra de Jesus pode vivenciar em si próprio os efeitos ou os conhecer em outras pessoas; quem não crê, nada experimenta nem vê. Dessa forma, muitas curas milagrosas de Jesus dão por assim dizer a impressão de provas de fé, de modo que o milagre maior não é a cura mas a fé. Portanto o milagre de cura é um sinal ( shme|ia Cf. Mt 12:38 s.; Mc 8:11 s.), o que quer dizer que ele ainda não é definitivo. Também se trata de uma salvação limitada em qualidade: é uma salvação temporal, que cura um corpo que deverá morrer. O milagre é promessa de salvação definitiva, vitória sobre o mal que atingirá nosso ser por inteiro e para sempre.
Também a tarefa dos doze, enviados em missão com o poder de Jesus, é a de anunciar o reino de Deus e de curar os doentes (Lc 9:1-2). A boa nova do reino se difunde vencendo o mal até nas suas ramificações  extremas (CF Lc 9:6; 10:9). [35] 

Não só as curas prodigiosas confirmavam o poder do anúncio evangélico nos tempos apostólicos; o próprio Novo Testamento  fala de uma verdadeira e própria concessão aos apóstolos e aos outros primeiros evangelizadores de um poder de curar as enfermidades em nome de Jesus. Assim, ao enviar os Doze para a sua primeira missão, o Senhor, segundo a narração de Lucas e Mateus, concede-lhes “o poder de expulsar os espíritos impuros e de curar as doenças e enfermidades” (Lc 9:1; Mt 10:1) e dá-lhes a ordem: “Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demônios” (Mt 10:8). Também na primeira missão dos setenta e dois, a ordem do Senhor é: “Curai os enfermos que aí houver” (Lc 10:9).

Os Atos dos Apóstolos referem de modo genérico prodígios operados por estes: “inúmeros prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos” (Atos 2:43; Cf 5:12).  Quer parte final do Evangelho de Marcos quer a Carta aos Gálatas, como antes se viu, alargam a perspectiva e não circunscrevem as curas prodigiosas à atividade dos Apóstolos e de alguns evangelizadores que tiveram papel de relevo na primeira missão. Nesse particular contexto, são de extrema importância as referencias  ao “dom das curas” ( 1 Cor 12:9,28,39). O significado de carisma é, por si, muito amplo: “o dom generoso”; no caso em questão, trata-se de “dons de curas obtidas”. Essas graças, no plural, são atribuídas a um único sujeito (Cf 1Cor 12:9) e, portanto, não se devem entender em sentido distributivo, como curas que cada um dos curados recebe para si mesmo; devem, ao invés, entender-se como dom concedido a uma determinada pessoa de obter graças de curas em favor de outros.

                       Concluindo, a salvação é atribuída ao Pai ( I Tm 2.3) e ao Filho (II Tm 1.10). Jesus veio como Salvador do mundo porque Deus queria a salvação de todo o gênero humano ( I Tm 2:4; Cf. Jo 4:42 ). Deus é descrito como salvador, no Novo Testamento por ser Ele o autor da  salvação que Jesus Cristo veio trazer aos homens (Luc. 1:47; I Tim. 1:1; 2:3; 2:10; Jud. 25). Percebe-se então,que os textos do Antigo Testamento ensinam a mesma doutrina básica de cura física explicitada no Novo. Os milagres de cura, portanto, são sinais da salvação oferecida por Deus. Na medida em que é ato de Deus, a cura abre-se para a fé em Jesus Cristo.


Esta maneira de conceber o milagre da cura pode remontar ao próprio Jesus, porquanto ele interpreta a sua atividade sobre o pano de fundo dos textos proféticos, que anunciam os sinais da salvação messiânica como libertação do mal físico. Ele começa a atacar o mal no nível periférico, onde se manifestam os sintomas mais evidentes. Mas seu objetivo é reconstruir o homem nas suas raízes, libertando-o da fatalidade que o torna escravo do mal. O diálogo que caracteriza o milagre da cura evangélica, mesmo admitindo as adaptações redacionais dos evangelistas com finalidade catequética ou litúrgica, provavelmente reproduz um estilo e método de Jesus para alcançar o homem e para suscitar nele aquela confiança e abertura que o tornam disponível à liberdade e novidade do reino de Deus. [36]
  

                         Portanto, o Novo Testamento exprime a convicção de que Jesus de Nazaré cumpre as esperanças de salvação do Antigo Testamento [37]. A razão fundamental para isso vem do fato de que no núcleo central de sua mensagem se encontra o anúncio de um Jesus “Salvador”, salvação cuja vinda ele manifestou no mundo não apenas por suas palavras, mas também por seu corpo, através de seus gestos de cura e de exorcismo e até do dom total de sua pessoa; neste sentido, é uma salvação integral que Ele oferece.

A esse respeito, SCHREINER, J.[38] diz que, segundo Paulo a fé e o conhecimento dão a medida da posição do homem na economia divina da salvação. Foi ele o primeiro teólogo da Igreja a desenvolver uma concepção própria da história da salvação, na qual o evento salvífico Cristo tem um lugar próprio. A pesar de membro do povo da aliança, para ele só existe uma salvação que realiza as promessas feitas ao povo de Israel, de modo que a história da salvação de Israel não termina em Cristo, mas tem nele o seu cumprimento. Com termos e conceitos jurídicos Paulo tenta assinalar, na obra salvífica de Deus, um lugar certo para o homem que existiu depois de Cristo isto é, a Igreja.

SOLI DEO GLORIA

REV. RUBEN DARIO DAZA B.

Este trabalho foi a proposta de Monografia apresentada no Seminário Rev. Antonio De Godoy Sobrinho, na cidade de Londrina (Paraná) no ano de 2001.

Para lêr sobre a proposta, clique neste link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/salvacao-em-deus-e-cura-uma-proposta-de.html


Para lêr sobre a Teologia Sistematica, clique neste link: http://teologiaycienciarubedaza.blogspot.com/2011/10/teologia-sistematica-cura-fisica-como.html 


[1] F. MICHAELLI. Verbete: SALVAÇÃO. In: J.J. VON ALLMEN. Vocabulário Bíblico. p.389.; HARTLEY. J. E. Verbete: Salvação-Livramento. In: VV.AA. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. p. 680; LESQUIVIT, C. & GRELOT, P. Verbete: Salvação. In: VVAA. Vocabulário de Teologia Bíblica, p. 938 s. Já no âmbito Latino-Americano, o termo “salvação” equivale a “Libertação” e Deus é definido pelo Êxodo, como “Libertador” não é um conceito adventício, mas o centro do querigma bíblico, isto é: o Deus-da-história que ilumina a atuação do Deus presente. Cf. CROATTO, Severino J. Êxodo, Uma Hermenêutica da Liberdade.  p.67.  O termo salvação nos LXX (SEPTUAGINTA) é swthri,a, swth,rion, (do tema sw|zw:significa curar, salvar, guardar), Cf. NELIS, J. Verbete: Salvação. In: VV:AA: Dicionário Enciclopédico da Bíblia. p. 1374 s.
[2] Cf. Especialmente nos Salmos de “Ação de Graças” onde se encontram as “narrações, do acontecido e da libertação”, assim: GUNKEL, H. Introducción a los Salmos, 1987, p. 281 ss. ; CERESKO, A., Introdução ao Antigo Testamento, Numa Perspectiva Libertadora, p. 278-279 e  LOHFINK, N. Grandes Manchetes de Ontem e de Hoje. p. 112 e 114.
[3] WOLFF, Walter Hans. Antropologia do Antigo Testamento. P.198.
[4] VON RAD, G. Teologia do Antigo Testamento (Vol 1). P.268
[5] CHAMPLIN,Russell  e  MARQUES B. P., ENCICLOPÉDIA DE BÍBLIA TEOLOGIA E FILOSOFIA, Volume 6  S-Z , Verbete: Salvação. p.82 s.
[6] CARMIGNAC, J. O vocabulário da Libertação e da Salvação na Bíblia. In: VV.AA. Libertação dos Homens e salvação em Jesus Cristo: Um estudo bíblico – 1ª Parte. (Cadernos Bíblicos). p.14.
[7] FOHRER, G. História da Religião de Israel. p.57.
[8] WESTERMANN, C. & JENNI, E. (editor), Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento – Tomo II, verbete: Alma. p. 120.
[9] WOLFF, Walter Hans. Antropologia do Antigo Testamento, 1975, p.21 ss.
[10] WESTERMANN, C. & JENNI, E. (editor), opus citatum, Verbete: Alma. p. 108 s.
[11] BAUMERT, N. Mulher e Homem em Paulo. 1999, p.232.
[12] Cf. BAUMERT, N. Mulher e Homem em Paulo. 1999, p.233 s.
[13] Homem efêmero, Wolff,Walter Hans. Antropologia do AT. p.43
[14] WESTERMANN, Claus. Teologia do Antigo Testamento. p. 35.
[15] WHITE, W. Verbete: Curar, tornar saudável. In: VV.AA. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento .1998. p.1446.
[16] WOLFF, Walter Hans. Antropologia do Antigo Testamento, 1975, p.193.
[17] idem, ibidem, p. 195 ss.
[18] SCHULTZ, Samuel J. A História de Israel no Antigo Testamento. 1995, p.52 e 68.; BONNARD, P.E. Verbete: Páscoa. In: VV: AA. Vocabulário de Teologia Bíblica. 1999. p. 719 s. Com relação aos textos Bíblicos que detalham os procedimentos para a observância da páscoa são: Nm 28: 16-25; Lv 23:5-8; Dt 16:1-8.
[19] Tradução usada da Bíblia Sagrada – Edição Pastoral.
[20] VON RAD, G., loc. Cit. p. 198
[21] WESTERMANN, C. O Antigo Testamento e Jesus Cristo. 1979, p.35.
[22] idem, p.45. 
[23] Cf. BORNKAMM, G. Bíblia Novo Testamento: Introdução aos seus escritos, 1981, p.48; LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. 1985, p. 118 ; WEISER, A. O que é milagre na Bíblia. 1978, p. 38 s. ; GNILKA, J. Jesus de Nazaré: Mensagem e História. 2000, p.113 s.; VV.AA. Os Milagres do Evangelho. 1982,p.25. (Cadernos Bíblicos Nº 16).   
[24] LOHFINK, Gerhard. Como Jesus Queria as Comunidades? A dimensão social da fé cristã.  P. 25 s. 
[25] FREYNE, S. A Galiléia, Jesus e os Evangelhos: Enfoques literários e investigações históricas. P.93.
[26] JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. 1977, p. 144 s.; GNILKA, J. Jesus de Nazaré, Mensagem e História. 2000, p. 118.   
[27] BORNKAMM, G. . Bíblia Novo Testamento: Introdução aos seus escritos. Loc. cit.  p.48;
[28] THEISSEN, G. Sociologia do Movimento de Jesus. P. 91.
[29] KÜMMEL, W. G. Síntese Teológica do Novo Testamento. P.191;
[30] BULTMANN, R. Teologia Del Nuevo Testamento. P. 179
[31] LOHFINK, G., Como Jesus Queria as Comunidades?. Op. cit., p. 120.
[32] FABRIS, R. & MAGGIONI, B. Os Evangelhos (II), Tradução e comentários. P. 207.
[33] VV.AA. Os Milagres do Evangelho. 1982, (Cadernos Bíblicos Nº 16). P. 63.
[34] FABRIS, R. & MAGGIONI, B. Os Evangelhos (II), Tradução e comentários. 1992, p.207
[35] FABRIS, R. & MAGGIONI, B. Op. Cit  p.208.
[36] FABRIS, R. & MAGGIONI, B. Op. Cit  p.207.
[37] NELIS, J. Verbete: Salvação. In: VAN DEN BORN, A. (redator). Dicionário Enciclopédico da Bíblia. 1992, p. 1377.
[38] SCHREINER, J.,Forma e Exigências do Novo Testamento, 1977, pp. 93.